Estragando a amizade

22 de setembro de 2025 0 Por Leandro Marçal

— Quê que tem o quarto?

— Tu tá a fim e eu tô afim, certo?

— É… Certo.

— Então, meu ponto é: o que acontece lá, não interfere aqui.

— Eu e você?

— Eu e você, não interfere na gente.

— Tu diz na amizade?

— Na nossa amizade.

— Pera, então tu tá dizendo… Que a gente se pegar não interfere na amizade?

— É isso, não tem essa de estragar a amizade, a gente não é adolescente.

— Entendi.

— Entendeu, mesmo? Quanto tempo a gente se conhece?

— Uns anos.

— Uns anos?

— Uns muitos anos.

— Uns muuuuuuuitos anos. Quanta coisa a gente passou, quantas vezes a gente se ajudou?

— Não consigo contar.

— Dá mais que os dedos da mão.

— Dá mais que os dedos das minhas mãos, das tuas mãos, dos meus pés, do teus pés… Somados!

— Pois é. Maturidade! O que a gente faz lá não interfere aqui. Não muda nada, a amizade continua.

— Mesmo que colorida.

— Pra mim, nunca foi cinza.

— Poesia, uma hora dessa?

— Tu entendeu, vai.

— Entendi, mas não sei. Já vi uns casos que nunca mais foi a mesma coisa.

— Falta de maturidade.

— Pode ser.

— Pode ser não, é. Pra que se segurar? Como é aquela tua frase do desejo?

— Desejo não se controla.

— Desejo não se controla, isso!

— No máximo reprime, mas não fica preso numa gaiola, sempre escapa.

— Filosofia, a essa hora?

— Filosofia, não. Psicanálise.

— Fez outra faculdade depois da a-dê-ême?

— Vai tomar no cu, vai!

— Tô brincando.

— Eu sei.

— Mas e aí, bora pro quarto?

— Não sei, tô meio…

— Te entendo.

— Também te entendo. Só de olhar.

— A gente se entende só com o olhar.

— A gente se entende só de se olhar!

— E aí?

Na manhã seguinte, não se falaram. Nem dois dias depois. No terceiro dia, um vídeo na internet fez retomarem os papos de sempre.