Estragando a amizade
— Quê que tem o quarto?
— Tu tá a fim e eu tô afim, certo?
— É… Certo.
— Então, meu ponto é: o que acontece lá, não interfere aqui.
— Eu e você?
— Eu e você, não interfere na gente.
— Tu diz na amizade?
— Na nossa amizade.
— Pera, então tu tá dizendo… Que a gente se pegar não interfere na amizade?
— É isso, não tem essa de estragar a amizade, a gente não é adolescente.
— Entendi.
— Entendeu, mesmo? Quanto tempo a gente se conhece?
— Uns anos.
— Uns anos?
— Uns muitos anos.
— Uns muuuuuuuitos anos. Quanta coisa a gente passou, quantas vezes a gente se ajudou?
— Não consigo contar.
— Dá mais que os dedos da mão.
— Dá mais que os dedos das minhas mãos, das tuas mãos, dos meus pés, do teus pés… Somados!
— Pois é. Maturidade! O que a gente faz lá não interfere aqui. Não muda nada, a amizade continua.
— Mesmo que colorida.
— Pra mim, nunca foi cinza.
— Poesia, uma hora dessa?
— Tu entendeu, vai.
— Entendi, mas não sei. Já vi uns casos que nunca mais foi a mesma coisa.
— Falta de maturidade.
— Pode ser.
— Pode ser não, é. Pra que se segurar? Como é aquela tua frase do desejo?
— Desejo não se controla.
— Desejo não se controla, isso!
— No máximo reprime, mas não fica preso numa gaiola, sempre escapa.
— Filosofia, a essa hora?
— Filosofia, não. Psicanálise.
— Fez outra faculdade depois da a-dê-ême?
— Vai tomar no cu, vai!
— Tô brincando.
— Eu sei.
— Mas e aí, bora pro quarto?
— Não sei, tô meio…
— Te entendo.
— Também te entendo. Só de olhar.
— A gente se entende só com o olhar.
— A gente se entende só de se olhar!
— E aí?
Na manhã seguinte, não se falaram. Nem dois dias depois. No terceiro dia, um vídeo na internet fez retomarem os papos de sempre.
