Fechado por motivo de Copa do Mundo

7 de junho de 2026 0 Por Leandro Marçal

Meses atrás, conversei com amigos da imprensa. Como quem sai de casa com um envelope pardo embaixo do braço para entregar currículos às segundas-feiras (porque os antigos diziam que o melhor dia para entregar currículos é a segunda-feira), ofereci minha prestação de serviços durante a Copa do Mundo. 

Nada de viajar, apurar, cobrir as partidas, correr atrás de boas reportagens, debater em mesas-redondas intermináveis. Sou um operário do texto, me ofereci para escrever crônicas durante o maior campeonato de futebol do planeta. Não seria novidade, fiz isso em 2018. Dizem por aí que vivemos tempos acelerados, corridos, sem pausa, com excesso de estímulos e exaustão. Textos mais literários poderiam ser um bom contraponto a isso. Essa literatura despretensiosa em veículos jornalísticos não é bem uma novidade, embora cada vez mais em desuso.

Para quem não tem contrato fixo de trabalho, seria uma boa oportunidade para ganhar um dinheiro extra, convenhamos. Se em outras Copas, o Pedro Bial e a Fernanda Gentil ganharam prestígio com suas emissoras forçando a barra e chamando de crônicas uns textos melosos que passavam longe de ser crônicas, eu também posso tentar a sorte, por que não? 

Mas meus amigos da imprensa não deram boas respostas. Me propuseram um espaço generoso, escrevendo todos os dias num site grande, em troca de bastante visibilidade e nenhuma remuneração. Dispensei, educadamente. Posso até parecer, mas não sou otário. O jeito é tirar férias da escrita, da minha escrita, durante a Copa do Mundo. 

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Me chamam de excêntrico, tenho manias estranhas. Consigo mencionar os campeões e vices e sedes de todas as Copas do Mundo, desde 1930. Sei onde estava nas eliminações do Brasil de 1998 para cá. O mesmo vale para algumas datas muito específicas do futebol. O mesmo também vale para os campeões da Fórmula 1, mas só a partir de 1985.  

Gosto do São Paulo Futebol Clube, mas gosto mais de futebol. Gosto de futebol, mas gosto mais de história do futebol. Já simpatizei mais com a seleção brasileira, mas gosto mais da Copa do Mundo. E gosto mais dos Jogos Olímpicos. No geral, gosto bem mais do esporte. E admiro esportistas, os sacrifícios de esportistas, o esforço de esportistas, pena ver tanta exploração de esportistas.

Beleza, admito: talvez eu seja tão estranho quanto minhas manias estranhas. 

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Fechado por motivo de futebol é um famoso livro do uruguaio Eduardo Galeano. Na descrição, “quando o Mundial começou, pendurei na porta da minha casa um cartaz que dizia: ‘Fechado por motivo de futebol’. Quando o retirei, um mês depois, eu já havia jogado 64 jogos, de cerveja na mão, sem me mover da minha poltrona preferida”. Certeiro e poético.

No meio literário, já tive a inteligência subestimada por acompanhar futebol, costume típico do populacho. Como se colocar esse esporte na ficção fizesse de mim, automaticamente, um péssimo escritor. Como se minha bagagem cultural se resumisse ao mundo da bola. Como se eu fosse completamente alheio à putaria das federações municipais, estaduais, nacionais e internacionais. Como se eu não me atentasse ao uso do esporte por políticos autoritários desde a Itália nos anos 1930, passando pelo Brasil e pela Argentina nos anos 1970, chegando aos Estados Unidos nos anos recentes. 

Não nego minhas manias estranhas, mas acho ainda mais estranho o elitismo dessa dita intelectualidade. 

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Você pode não suportar ver 22 pessoas correndo atrás de uma bola para jogá-la com os pés dentro daquela caixa com uma rede, protegida por um otário de luvas, mas tem a obrigação de usar a Copa do Mundo a seu favor. Encontre-se com os seus e as suas. Vá a churrascos. Organize churrascos. Divirta-se nos churrascos, em que as partidas da seleção brasileira são pretexto para encontros e reencontros. No escritório, disfarce: numa aba, deixe aberto o jogo da rodada; na outra, mantenha a planilha de emergência para o caso da chefia aparecer cobrando relatórios pendentes. Entre nos sites especializados, estude os regulamentos, anote em agendas as datas dos próximos jogos. Aproveite as 104 partidas da competição. (Aprendi muito de Geografia vendo futebol e outros esportes). Finja-se de especialista (nem precisa ter vergonha, tem muita gente fingindo-se de especialista e ganhando dinheiro, muito dinheiro, com generosos espaços na mídia para atuar sem medo de enganar gente desavisada). É tempo de Copa. Deixe leituras, filmes, estudos e outras distrações para depois. Pratique o estilo monotemático de ser. Passa rápido, eu prometo.