Reset

25 de maio de 2026 0 Por Leandro Marçal

Pego impulso na parede com a perna direita e sigo em frente por alguns metros, olhando para baixo, os braços para frente, as mãos lado a lado, o ar saindo pelo nariz; levo o braço direito para trás, depois para cima, dando uma volta fora d’água; repito o movimento com o braço esquerdo; outra vez o direito; e quando completo a quarta braçada, viro a cabeça de lado com a boca aberta, puxando ar; repito os movimentos, respiração na quarta braçada, até encostar na raia a vinte e dois metros de onde peguei impulso; volto a pegar impulso, volto a dar quatro braçadas, volto a respirar fora d’água, volto a soltar o ar pelo nariz dentro d’água, volto a percorrer vinte e dois metros nadando crawl, volto a bater a mão na raia como se disputasse uma prova. Fim da primeira das seis voltas de aquecimento.

Pego a garrafa prateada na beirada da piscina, bebo pouca água; água, água, água; nadando, suamos demais, sem perceber; todo cuidado com a desidratação é pouco. 

Terminados os duzentos e tantos metros percorridos como “reconhecimento de piscina” numa piscina já bem conhecida, coloco os palmares nas mãos; doze chegadas, e agora o treino começou de verdade, respirando na terceira braçada: a primeira será à esquerda, a segunda será à direita, e debaixo d’água viro ambidestro; sou obediente à instrutora; hoje vai ser só crawl, me permitindo nadar mais, sem me descompensar no pouco senso de direção do nado costas, na falta de coordenação motora do nado peito, na falta de fôlego do nado borboleta; “vai lá, preciso respirar um pouco”, digo à colega da terceira raia à esquerda, a dos mais velozes, da qual sou o mais lento; posso ser ultrapassado, não estou competindo; dou impulso; braçada, braçada, braçada respirando à esquerda; braçada, braçada, braçada respirando à direita; toco na outra raia, volto pelo lado esquerdo, retomo os movimentos sem perder muito tempo.

Ao fim da série, olho para o relógio pendurado à parede, oito e tantas; agora, além dos palmares nas mãos, a boia presa às coxas me impede de bater as pernas enquanto nado; respiração livre, escolho a quarta braçada; quatro por um, a respiração de segurança; e só as braçadas me levam de um lado para o outro; mais doze chegadas; mais um impulso na parede com a perna direita; mais uma rodada de pensar apenas nos movimentos, no agora; pelo menos por enquanto, que se fodam os problemas do dia a dia, que me desconcentrariam se pensasse neles; quando nado, já não penso no que fazer, só faço. 

Fim do treino; trinta chegadas; considerando a piscina comercial de vinte e dois metros, onde cada chegada, ida e volta, corresponde a quarenta e quatro metros, percorri hum mil trezentos e vinte metros; (e essa é a primeira vez que escrevo “hum mil” longe de um documento burocrático); mato a água restante na garrafa, passo pela raia do meio, chego à raia da outra ponta, subo pela escadinha, me despeço da instrutora; pego minha bolsa e meus chinelos; tomo uma ducha gelada; troco de roupa; ando um quilômetro até minha casa; chego cansado; com fome, abro a geladeira e pego o pote quadrado, com cinco bananas e duas maçãs cortadas em pedacinhos; jogo duas ou mais colheres de leite em pó e granola; é a reposição daqueles cinquenta minutos de natação; e cinquenta minutos de natação dão muita fome. 

Falamos de amenidades; escovo os dentes; afago os gatos; abro o computador; ainda não são nove e meia da manhã; o dia mal começou.