Pedindo cabeças

1 de junho de 2026 0 Por Leandro Marçal

“Pediram minha cabeça”, disse o Amigo Jornalista. Nos veículos de comunicação, a expressão é usada quando figuras públicas e melindradas exigem a demissão de profissionais cujas reportagens ou artigos opinativos lhes chatearam. Políticos são especialistas nessa cretinice. Mas tudo quanto é gente famosa cultiva esse péssimo hábito: de influencers a empresários engravatados, de cantores midiáticos a supostos artistas, de dirigentes esportivos a papagaios de pirata. 

Funciona mais ou menos assim: a tal figura pública e melindrada entra em contato, ou pede para alguém da assessoria entrar em contato com as instâncias superiores dos veículos de comunicação. Vomitam xingamentos, cospem marimbondos, expõem a irritação com quem escreveu ou falou algo contrário às suas vaidades e vontades. Pode ser tudo verdade, podem existir argumentos irrefutáveis, pode estar na cara aquilo exposto por quem segue o bom profissionalismo. Não importa. Pede-se a cabeça, exige-se a demissão sumária. Cabe às instâncias superiores colocar-se de joelhos à figura pública ou bancar o próprio time. “Te dou o direito de resposta, mas na minha equipe mando eu”, respondem chefias decentes. 

Nem sempre a Redação fala a mesma língua do Departamento Comercial. Volta e meia, grandes trabalhos jornalísticos não ganham a merecida e necessária repercussão. Seja pela bunda-molice de chefias covardes, seja pela ausência de caráter dos donos de veículos de comunicação. Para essas espécies asquerosas, perder a verba de anunciantes é mais preocupante que perder a credibilidade.

Quem nunca viveu a dinâmica da Comunicação deve achar estranho. Em certas carreiras, parece óbvio pisar em ovos para não melindrar os andares de cima, tão capazes de mudar vidas na base da canetada. No Jornalismo, incomodar gente poderosa faz parte da função. A omissão torna o diploma apenas um enfeite pendurado na parede. Ficar na sua, sem mexer com ninguém, não é bem uma qualidade para quem busca uma carreira baseada na prestação de serviços públicos divulgando informações relevantes. 

Mas a vida não é fácil e todo mundo tem contas a pagar. Muitas vezes, a omissão preserva empregos. Quem já foi vítima de um passaralho ou teve a cabeça entregue numa bandeja para uma figura pública, talvez até queridinha por leitores e espectadores desavisados, sabe que a consciência tranquila pode andar de braços dados com o bolso vazio.

Raramente se pedem cabeças por erros cometidos. Quase sempre, o pedido é consequência de acertos. Assim aconteceu com o Amigo Jornalista. Que é um grande profissional, reconhecido e respeitado pelos meus pares. Logo ele se ajeita, logo ele será consolado pela recolocação no mercado.   

Cabeças rolam em alta velocidade. A boa conduta anda a passos lentos, mas sabe onde quer chegar.