Pizza de 600 reais
Não janto. Minha última refeição acontece entre seis e oito da noite. Depende de questões do trabalho. Não pode ser um pratão como o do almoço, que no meu caso nem dá para considerar um Senhor Pratão. Essa última refeição mais parece um café do fim do dia, com chá no lugar do café. Quando como demais depois do pôr do sol, durmo mal. Nas piores noites, tenho pesadelos esquisitíssimos, acordo várias vezes durante a madrugada, me sinto pesado, estranho, agoniado.
Na rara pizza do fim de semana, me programo para fazer o pedido não muito tarde. Nem sempre é possível, obviamente. Sou fiel aos mesmos restaurantes e bares. Neles, me sinto bem, me conhecem de nome e quase sempre sabem de antemão o que anotar na comanda. Sigo um ritual parecido com a rara pizza do fim de semana.
Pelo WhatsApp, envio mensagem para o mesmo pequeno estabelecimento a poucos quilômetros de casa. Pizzaria sem cadeiras e mesas, só trabalha com entregas. De pouca habilidade para o digital, a senhorinha me responde com calma, me pede o endereço, me passa a chave Pix, me confirma o pagamento e me informa o tempo de espera. Pizzaria de bairro, minúscula e com preço justo, pouco conhecida para os lados do Centro, muito indicada por mim em bate-papos gastronômicos.
Lá, ninguém rasga dinheiro comprando algo parecido com a pizza mais cara do Brasil: na enjoada cidade vizinha, clientes exigentes levam para casa “uma pizza com 3 kg de camarão rosa médio, muçarela ou catupiry, cebola, salsinha e azeitonas por R$ 599”.
Se eu ficar rico amanhã, me recuso a pagar 600 reais numa pizza, porque não existe pizza que valha 600 reais. Se depois de amanhã eu virar milionário, não desembolso 200 reais numa melancia, porque nenhuma melancia vale 200 reais. Ainda que eu cague dinheiro na semana que vem, não me submeto a gastar mil reais numa camisa, dois mil num relógio, três salários-mínimos num tênis.
Pensei em afirmar que nunca gastei mais de 100 reais numa pizza. Na verdade, nunca gastei mais de 100 reais comprando duas pizzas. Nos bairros longe do Centro, que dão medo à gente enjoada da cidade vizinha, encontro pequenos estabelecimentos aos quais me apego facilmente. Neles, não me sinto tão enganado quanto naqueles capazes de entupir um monte de massa com camarão, cobrando seis dezenas de reais pela combinação alimentar meio esquisita, meio afetada, mas digna de notícias empolgadas nos jornais locais.
Se um dia eu cogitar pagar 600 reais numa pizza, 200 reais numa melancia, mil reais numa camisa, dois mil num relógio ou três salários-mínimos num tênis, corro o risco de ter pesadelos ainda mais perturbadores do que nas noites de jantares exagerados. Todos os dias, um esperto e um otário… você sabe.
