Ele só pensa naquilo

12 de janeiro de 2026 1 Por Leandro Marçal

O cara tem vocação para ser monotemático. Se deixar, passa horas falando do mesmo assunto. Quando entra numa crise ansiosa, então… Aí é que não para de remoer o tópico tão repetido, abordando diferentes pontos de vista, relembrando experiências passadas e pedindo conselhos. Mas o cara é gente boa, não tem como negar.

Parece obcecado. Roda, roda e roda sem sair do lugar. Tipo um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Ele persegue o assunto, ele só pensa naquilo. Posso contar nos dedos quantas vezes encontrei esse cara e não falamos daquilo. Depois do futebol de segunda-feira, em festa de criança, no bar. Um pessoal até se afastou porque não aguentava mais.

Sendo sincero, eu até entendo. Não é fácil ouvir a mesma ladainha de sempre. Sou humano, penso e também sinto, ninguém é compreensivo o tempo inteiro. Desde a adolescência, aquilo já passou muito pela minha cabeça. Mas a vida vai além do dinheiro. Colocar a grana como centro da vida é até perigoso.

Se eu entendo o pessoal que se afastou, também consigo me colocar no lugar do cara. Só quem tem bastante dinheiro não pensa tanto tempo em dinheiro. Anos atrás, ele passou por um aperto desgraçado. Necessidade, vulnerabilidade. Foi difícil de acompanhar, dava até pena. Constrangido, pedia emprestado e perguntava onde poderia entregar seu currículo, um qualificado currículo. Ouvi dizer que as primeiras crises de ansiedade foram naquela época, ele mal tinha como pagar as contas, imagina investir em psicoterapia.

“Malandro, é o seguinte: meu único gatilho pras crises mentais é o financeiro. Com as outras coisas, consigo lidar bem. Relacionamentos afundando, brigas de família, morte de gente querida… Tudo isso me afeta, me entristece e dá raiva. Mas crise, crise mesmo, só por incerteza de grana”, me disse num boteco.

E me mostrou o celular: o cara tem uma conversa aberta no WhatsApp, com ele mesmo, como bloco de anotações. Ali, fica registrada a atualização constante do saldo bancário. Para não se perder e se antecipar a fraudes, mesmo sem ter medo de golpes do Pix, porque nunca tem saldo suficiente para cair nesse tipo de armadilha.

Já trabalhou em muitas empresas, já exerceu várias funções. Antes, o cara era mais sonhador, pensava em carreira, crescimento, essas coisas. Hoje, vai para onde lhe pagam mais, desde que não precise tomar atitudes antiéticas. Seus critérios morais são bem rígidos.

Como levar comida à mesa amanhã, quais contas do mês já foram pagas, de que jeito equilibrar os débitos para o mês seguinte. Ele queria ter uma vida mais confortável para deixar de pensar tanto naquilo.