Viver de saudade
Me aconchegar no teu abraço e me sentir embaixo das cobertas em noite fria e chuvosa. Ver o time de coração entrando em campo com a certeza de que do outro lado existe uma mistura de medo e respeito, porque ninguém pode com a gente. Comprar um pastel barato, baratíssimo, na saída da escola, na barraca diária do outro lado da rua, pagando com as últimas moedas guardadas no bolso de fora da mochila. Fixar os olhos no teu sorriso espontâneo, num barzinho qualquer, com a satisfação de emplacar a piada perfeita na noite tomara que perfeita. Passar o horário de almoço estudando compulsivamente, porque só existe uma chance, uma única chance, de passar naquela prova e garantir um modesto lugar na faculdade. Pedalar na ciclovia da praia, atrás do adulto ensinando os caminhos, antes de passar horas encarando o mar, sem hora marcada para voltar. Te pegar no colo pela primeira vez, e lembrar quando me avisaram sem gaguejar que você estava a caminho, e marejar os olhos só de pensar nas tuas primeiras palavras, na tua primeira aula, em te buscar na balada, em te consolar nas decepções, em te incentivar nos voos sem meu impulso. Parar de bater palmas antes da vela ser apagada por quem já apagou tantas velas e hoje perde o fôlego num sopro rápido. Chorar escondido até perceber a perda de tempo ao esconder o choro. Sorrir sem motivo, sabendo o motivo. Sentar no banco mais alto do ônibus como se conquista o mundo. Reencontrar a criança que vive aqui dentro e prometer nunca mais abandoná-la pelo caminho. Mirar o fundo do poço depois de sair de lá. Dar o primeiro beijo ao fim dos assuntos e dos constrangimentos. Perceber a chegada inesperada do luto e não fugir antes de ruminá-lo. Beber como se não houvesse amanhã, se arrepender porque houve amanhã. Ouvir a mesma história pela milésima vez sem reclamar da repetição. Almoçar no domingo com todas as cadeiras ocupadas, encarar as mãos distribuindo pratos e panelas de um lado para o outro da mesa. Permitir que o último botão da camisa seja ajeitado por quem se sacrificou para te ajudar a chegar ali. Dar as mãos a quem se acomoda na maca do hospital. Receber os cumprimentos de quem chega no cemitério. Sentir a respiração de quem divide a cama. Olhar nos olhos até faltar palavras. Escorrer a lágrima solitária naquele verso daquela música. Entalar as palavras na garganta. Mirar o futuro sem tirar os pés do presente e sem medo do passar do tempo. Revisitar o passado sem se amargurar no saudosismo. Viver de saudade valorizando o agora, o intenso agora, a certeza única chamada de agora.

Frases fortes, impactantes