Babá de barbado
Fico contrariado quando subestimam minha inteligência. Pode parecer arrogância (e talvez seja), mas não consigo disfarçar o incômodo se me olham como um cara incapaz de separar sílabas e fazer uma multiplicação simples. Também expiro desconforto ao me tratarem feito criança. Já me aconteceu no trabalho: instâncias superiores amam contar infantis lorotas corporativas, fingindo acreditar que eu acredito em certas baboseiras.
Sou meio ranzinza, é verdade. Mas tenho bons argumentos, pode admitir.
E também fico impressionado ao me deparar com tantas histórias de marmanjos barbados carentes de babás. Eu sei, são tempos de notícias tão frequentes quanto chocantes de grave violência contra mulheres pelo Brasil, não quero abrir uma petição no tribunal de minúsculas causas. Mas acho que essa causa nem é minúscula.
Sou incapaz de contar nos dedos das mãos e dos pés o tanto de conhecidos tratando mães, irmãs, avós, namoradas e esposas como tutoras. Falo de caras lúcidos e saudáveis. Tão saudáveis quanto incapazes de cuidarem de si, de andarem com as próprias pernas, de assumirem as próprias responsabilidades de homens adultos.
Não sou perfeito, nem infalível. E já me irritei pelos elogios de parentes e amigas da minha mãe que me viram lavando a louça ou pendurando roupas no varal durante uma visita em casa. Como se eu fosse um benfeitor, como se eu me destacasse por ser funcional. “Parabéns por nada”, eu merecia ouvir.
Conheço mulheres incríveis, mas anuladas pelos barbados lhes sugando a alma pelo serviço de babás. Anuladas, minadas e sobrecarregadas pelos parceiros vagabundos. Elas trabalham sem folga, dentro e fora de casa. Quando o desgraçado lava o prato do almoço sem nem limpar o ralo da pia, cogita se candidatar ao Nobel da Paz pelos serviços prestados no lugar onde mora. Quando esse tipo de cretino cumpre tarefas básicas do cotidiano, conjuga o verbo “ajudar” para ganhar palmas e elogios.
É de foder a paciência.
Como desgraça pouca é bobagem, perdi as contas de quanta gente faz malabarismos para justificar o jeito malandro de se escorar nelas. O mundo é injusto, eu sei. Daí a se pendurar na cacunda da mulher, que se desdobra para sustentá-lo e à família pela alergia a trabalho e a bom senso vai uma distância mais que considerável.
Esses folgados frequentam nossas famílias, círculos de amigos, nos cumprimentam nas ruas. Podem ser divertidos para a cerveja do fim de semana, mas são terríveis para o convívio. Foi-se o tempo de folclorizá-los, tratando-os como caras divertidos. Um tempo de romantização do absurdo, de leniência, cinismo e omissão por parte de outros barbados, aqueles que não precisam de babás.
Quando a mulherada vem a público reclamar dos meus pares, fico constrangido ao ver respostas ressentidas, como se tudo estivesse no seu devido lugar, como se as queixas fossem pura frescura. Nessas horas, sinto minha inteligência subestimada. E esse é o menor dos problemas.
