Prefácio do livro ‘O pai, a faca e o beijo’
Logo no primeiro parágrafo deste O pai, a faca e o beijo, o protagonista e narrador Santiago Severo Jerônimo conta o final da história. Sem firula, entrega a atitude extrema. Sem remorso, expõe o ato balizador do romance. Se vivemos num tempo de imediatismo e spoilerfobia, adiantar o último ato já nas linhas iniciais é uma escolha arrojada, para dizer o mínimo.
Porque o romance de estreia do Thiago Sobral é arrojado. Não sou entusiasta das hipérboles, nem tenho vocação para fazer média. Na primeira leitura, e prefaciadores têm o privilégio de ler as obras bem antes do público geral, eu disse ao autor: caralho, que puta livro tu escreveu! Para os mais moralistas, peço perdão pelo meu francês e pelo uso do tuísmo típico da Baixada Santista. Para os mais moralistas, talvez esse seja o menor dos incômodos nas próximas páginas.
Ambientado em Cubatão, terrinha do Sobral, o romance acompanha um Santiago sufocado, espremido, sentindo-se preso à homofobia dentro da família e dentro de si, recheado pelo machismo que também oprime os homens, pelo racismo e pelo classismo tão comuns à sociedade brasileira e ao meio de trabalho braçal, de fábrica, onde ganha a vida, seguindo a tradição familiar.
Tradição, que palavra complexa nos tantos significados. Capaz de nos fazer valorizar quem veio antes, mas também com vocação de perpetuar preconceitos e discriminações, entranhadas num Santiago buscando e negando a própria identidade. Assim, simultaneamente. Seu pai, Severo, não é severo apenas no nome. Carregando questões internas, volta e meia massacra a cria, como também se sente massacrado por forças superiores. Não no sentido religioso, embora a vivência fundamentalista e contraditória na religião construa sua identidade quebrada.
Você conhece um Santiago. Já conviveu com um Severo. Presenciou a intolerância contra algum “Pirueta” e alguma Mãe Maria. Sabe que toda Dona Teresa carrega menos hipocrisia que muito Padre Jorge por aí. Porque este O pai, a faca e o beijo não é literatura de mundos distantes, gigantescos e mirabolantes. É “pé no chão”, ficção das nossas ruas, acontecendo nas esquinas formadoras de cotidiano.
Se você sofre de spoilerfobia, não se preocupe. No primeiro parágrafo, vai descobrir o “que”, mas o “por que” e o “como” são bem mais importantes e envolventes. Não é hipérbole, posso garantir.
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O texto acima é o prefácio de O pai, a faca e o beijo, escrito por Thiago Sobral, publicado pela Patuá e lançado no último sábado. Trabalhei na preparação do livro, que recomendo bastante! Você pode comprar um exemplar NESTE LINK ou entrando em contato diretamente com o autor no Instagram.
(Sou um profissional do texto 100% freelancer, se quiser me chamar pra trabalhar na edição, preparação e revisão do seu livro, pode me chamar também, eu tenho contas a pagar!)
