1 idiota contra 30 idiotas
Você conhece a dinâmica, já tropeçou nesse constrangimento: na ânsia por repercussão, e talvez recebendo uns trocados para fechar as contas do mês, a Figura se submete ao rascunho de debate em vídeo. Senta numa cadeira mequetrefe, bem posicionada diante das câmeras. À frente, outro assento, onde gente gaiata se reveza, vomitando frases de efeito, sem vergonha de expor a própria burrice nas redes sociais.
Ao redor, mais vinte ou trinta pessoas esperando a vez. Feito as pegadinhas televisivas de outros tempos, boa parte contratada em agências de atores e atrizes. Simulam espontaneidade e tentam chamar atenção para, quem sabe?, conseguir uma boquinha em projetos audiovisuais futuros.
Volta e meia, um convidado ou outro demonstra sapiência, rebate a Figura usando argumentos embasados, frases coerentes, teses ligeiramente complexas e relevantes, exigindo reflexão na réplica. Sempre haverá exceções para confirmar as regras, mesmo as mais esdrúxulas.
A vaidade afrouxa quando a fome aperta, é verdade. Mas quando o desgraçado do algoritmo me indica uma merda de vídeo desses, finjo inocência e me pergunto por que alguém de bom senso se submeteria a bater boca num ambiente tão insalubre, artificial e de péssimo gosto.
Gente metida a politizada ama replicar embates do tipo para reforçar as próprias crenças. Mostram como a Figura “humilha” oponentes num recorte bem selecionado, editado e interrompido no ponto mais conveniente. Se sentem mudando o mundo com a postagem criada sob medida para agradar a própria bolha, evitando estourá-la pelo risco de contato externo.
São poucos vencedores nesses debates. Claro, os bilionários donos das redes sociais sempre ganham, lucrando com nossa atenção. Também cantam vitória seus participantes: a Figura ganha mais minutos de fama, a gente gaiata leva um trocado para casa porque não é fácil pagar as contas. Tem os donos das páginas que organizam o ensaio de barraco on-line, tão abertos a parcerias com marcas que possam investir uma grana nessa patacoada de audiência generosa.
Ao ver os primeiros vídeos nesse formato, pensei: a Figura está “debatendo” com 30 idiotas. Hoje, vejo 1 idiota trocando perdigotos com 30 idiotas, e mais uns milhões de idiotas dando palanque para uma tremenda idiotice.
No tempo da economia da atenção, ninguém convence o lado oposto com bons argumentos, é preciso gritar, babar e odiar para garantir curtidas. O formato 1 idiota debatendo com 30 idiotas legitima não só a idiotice, mas também abre espaço para mais idiotas ganharem fama e generosos espaços no debate público sobre temas socialmente relevantes.
“E se te pagassem, ia recusar a participação?”, talvez você me pergunte. “Tenho vergonha na cara”, eu te responderia. Agradeceria cordialmente, mas recusaria como quem dispensa a oferta imaginária do frila na biqueira, ou o patrocínio da bet condicionado a atrelar minha imagem à desgraça do vício alheio. Mas talvez eu também seja idiota. E assim caminha a humanidade.
