Mineiro
Aos 26 minutos do primeiro tempo, Carlos Luciano da Silva obrigou outro Carlos, o Eduardo Galvão Bueno, a interromper uma breve e não solicitada explanação para narrar em cima do lance o lance mais importante de muitas vidas na transmissão da TV Globo: “(…) Jogador mais velho da competição, trinta e oito anos. Toque de bola, posição legal, Mineiro bateu… Bateu… Bateu…”.
Também na Globo, a rádio, Oscar Ulisses dos Santos definia a personalidade do volante em precisas 14 palavras: “Mineiro! Mineiro! Humildezinho, lá do Rio Grande do Sul pro futebol brasileiro, pra Yokohama!”. O nome grafado atrás da camisa por duas vezes; o adjetivo no diminutivo; o advérbio; a preposição; o substantivo próprio do estado mais ao sul do Brasil; outra preposição; o esporte mais popular do mundo; o gentílico da nossa terra; outra preposição; o substantivo próprio da terrinha do outro lado do mundo, onde São Paulo e Liverpool disputavam a final do Mundial de Clubes de 2005.
Um ano antes, Mineiro marcava o gol do inédito título paulista do São Caetano, na improvável final estadual contra o Paulista de Jundiaí, obrigando Cleber Tadeu machado a juntar essas palavras: “(…) e um gol que tem todo um símbolo da humildade, da dedicação, da força de vontade do Mineiro, que é um pouco proporcionalmente o que é o São Caetano: um time que não desiste, que marca, que corre, que tem habilidade, como o Mineiro mostrou na hora do gol”.
Mineiro, um gaúcho de Porto Alegre. Ganhou o apelido porque seu irmão jogava nas categorias de base do Internacional, que tinha um Cláudio Mineiro no time de cima, cuja semelhança física com o brother rendeu a alcunha “mineiro”, repassada ao mais novo, o “mineirinho”, que depois ficou livre do diminutivo.
O tempo tirou as aspas de Mineiro: formou histórica dupla de volantes com Josué; marcou aquele gol; jogou na Alemanha e na Inglaterra e na seleção brasileira. E mesmo o mais tarado por futebol não lembra a voz de Mineiro, que pouco fala, que nada esbanja.
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Mineiro, a simplicidade. Que poderia fazer turnê em podcasts futebolísticos, contando lorotas, escorado no gol mais importante de tantas vidas. Que poderia cagar para as modéstias e responder “eu” quando perguntado por rasos influencers se jogou melhor que Pelé e Jesus Cristo. Mineiro, de quem pouco se fala pelo tanto que fez.
Mineiro não sonhou sozinho porque muita gente sonha com a gente. Mineiro, o coletivo. Mineiro, que não faz questão de ser visto. Mineiro, de pouco ego. Entra mudo e sai calado. Nada adepto às “paquitagens” de Instagram (mas poderia, mas merecia). Num tempo de telas, de pressa, de curtidas, de autoelogios, Mineiro é raro. Mineiro é foda. Sejamos mais Mineiro. Tão grandes quanto o pequenininho Mineiro. Vida longa, Mineiro, 51 anos completados hoje. Se ninguém mais lembrar, eu lembrarei.
