Imagens fortes

24 de agosto de 2026 0 Por Leandro Marçal

Tem uma câmera de segurança apontada pro quintal. Moro numa rara casa, com um raro quintal. Não sou muito fã dessa câmera de segurança, nem acho que ela seja tão de segurança assim. Prefiro chamar a câmera de câmera: tem uma câmera apontada pro quintal. Branca, protegida por cercas, comprada na Shoppee, configurada num aplicativo. Dá pra ver as imagens no celular, mover pra cima, pra baixo e pros lados. Também dá pra acessar as imagens pelo notebook, mas o programa ficou obsoleto, então desisti de ver as imagens do quintal pelo notebook, que pra alguns virou um equipamento obsoleto, mas pra mim é indispensável no trabalho de casa. Sem o programa de acesso às imagens da câmera apontada pro quintal no meu não obsoleto notebook, dou menos de dez passos do quarto-escritório até o quarto da frente quando tocam a campainha. Meu pai é mais tecnológico: prefere abrir o aplicativo no celular, esperar os cinco segundos da propaganda indesejada, fazer login e olhar as imagens antes de dar bem menos que dez passos da sala até o quintal e atender quem chamou no portão. 

Me incomoda a câmera, a apenas câmera, apontada pro quintal, mas sou bom filho. Me incomoda o excesso de vigilância, com câmeras por todos os lados, penduradas nas entradas de comércios e residências, do Centro aos bairros, da favela ao asfalto, das casas aos prédios. Mas sou um ser do meu tempo. E como ser do meu tempo, não vou mentir: já usei a câmera pra dar migué, fingindo não ter ninguém em casa, olhando as imagens, fazendo silêncio e evitando atender gente indesejada, de vendedores a fanáticos religiosos. 

De casa até a praça são menos de 100 passos. Antes da praça, tem um corredor. Passando por um portão gradeado e entrando no corredor, tem oito casas, metade à direita, metade à esquerda. A vizinha simpática instalou seis câmeras, apontando pro corredor e pra rua. De lá, dá pra ver a entrada da minha casa. Me incomoda. Não que eu faça algo de errado, pelo menos no portão de casa, mas quando saio pra nadar e quando volto do bar, me pergunto: será que a vizinha tá de olho no meu sagrado direito de ir e vir? 

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Sem nada pra fazer, zapeio no Instagram. Paro numa postagem bem diagramada, publicada por um portal de notícias. No primeiro frame, o alerta: “imagens fortes”. Clico. O atropelamento fatal de uma idosa no Centro é mostrado quase explicitamente, borrado por um efeito qualquer, tentando diminuir o choque de internautas desavisados. A notícia já é triste e chocante, mas qual o interesse público em ver com os próprios olhos a morte alheia? Se já é difícil lidar com o luto, quão difícil será pra família ter a morte trágica da parente assim, exposta ao mundo nas redes sociais, com o aval de um portal de notícias com credibilidade construída ao longo dos anos, ao longo das décadas? 

Cercado por câmeras de segurança pra além do quintal, penso no alerta “imagens fortes” como a certeza de que o vídeo a seguir não deveria ser exposto. Não é do meu interesse. É pura revitimização de quem já se traumatizou num assalto, acidente grave, agressão ou outra humilhação em via pública. Tempos atrás, eu achava doentio o compartilhamento de gente espancada e até assassinada em grupos de WhatsApp, com a clássica justificativa do “mas é bandido”. 

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Me incomoda pensar que uma pessoa amada pode sofrer violência nas ruas, seguida pela violência nas redes sociais e do noticiário local. Me imagino assaltado, depois agredido. Vou à delegacia, registro o boletim de ocorrência, peço aos bancos e instituições o cancelamento dos meus poucos cartões. Chego em casa, sento pra almoçar, ligo a televisão. Me vejo assaltado e agredido no jornal do almoço. Me ligam, perguntando se tá tudo bem comigo, questiono como souberam do assalto. Me encaminham um vídeo numa página do estilo Qualquer Bairro News, daquelas bem cretinas, que compartilham qualquer boato local em troca de cliques e curtidas e comentários e compartilhamentos. Sem minha autorização, sou exposto a replays e mais replays do trauma. Passei longe de jogar bola, mas vivo a agonia do VAR. Tem uma câmera de segurança apontada pro quintal. E pras ruas, e pras calçadas.