Tribunal de minúsculas causas
“Tu quer ter razão ou prefere ter paz?”, perguntei quando percebi a discussão esquentando, os gestos ganhando velocidade, os tons de voz subindo, as gotas de suor escorrendo pela testa, as gargantas puxando saliva para dar conta do falatório. O tema, irrelevante, ganharia o esquecimento dos debatedores rapidamente. Ninguém queria sensatez, só se ansiava pelo meu julgamento. Precisava existir o certo e o errado, mas não me parecia razoável gritar impropérios por uma pequenice cotidiana.
Eu sei, eu admito, eu confesso, eu dou o braço a torcer: sou meio ranzinza. Meio! O tipo de gente capaz de odiar emojis e a risada “rs” em conversas on-line. Mas tudo na vida tem limites. Passo longe de comprar brigas. À vista, a prazo, com desconto, não importa, prefiro economizar para não ter prejuízos. Se me pagam mil reais para entrar numa treta, devolvo dois mil para atravessar a rua. Não por medo ou covardia, mesmo com meu doutorado em bunda molice, mas passo longe de pular em ringues por motivos banais.
“Brigar não tá com nada”, diz aquele samba do Bom Gosto. Concordo demais. Na rua, no mundão lá fora, tem gente demais encarando o próximo de cima para baixo, buscando a primeira oportunidade para levantar a voz ou as mãos. É saudável riscar uma linha no chão, demarcando o limite que não pode ser ultrapassado e evitar invadirem nosso espaço. Daí a frequentar reuniões dos Barraqueiros Anônimos vai uma grande distância.
Minha tese não comprovada cientificamente aponta que pessoas briguentas tendem a ser desagradáveis e cheias de certezas. Quem briga com todo mundo se enche de razão, mas quase nunca tem razão. Quem se sente perseguido pela encrenca não percebe a vocação para persegui-la. Também erra quem berra, fingindo tentar mudar tudo de errado no mundo. A vida não precisa ser emocionante o tempo todo. Gente treteira não lida bem com o tédio, carrega certezas demais, tem respostas para tudo. Prefiro o caminho das perguntas.
A natureza do conflito: uns têm, outros não têm (para a própria sorte). Conheço quem pagaria fortunas para brigar, sem nem saber o motivo. Já convivi (ou convivo?) com gente capaz de criar uma crise por dia. Como não trabalho com gestão de crise, ignoro picuinhas e corto o mal da treta desnecessária pela raiz.
Pequenas desinteligências e irrelevantes desentendimentos não costumam me abalar. Em casa, no trabalho, na rua… Quero seguir a vida. Não vejo motivos para gritar com o ciclista na contramão se ele não me atropelou, nem gasto energia xingando o motorista do carro pela infração cotidiana. Quero seguir a vida, já falei.
O tribunal de minúsculas causas está sobrecarregado. Lá, todo mundo é juiz, promotor e advogado. Todo mundo acusa, todo mundo se defende. Aos gritos, obviamente. O réu é sempre o outro. Quem briga por lazer não liga para a justiça. E prefere ter razão, mesmo que isso lhe custe a paz.
