Desincentive seus amigos

10 de agosto de 2026 0 Por Leandro Marçal

Não me importo em ser malvisto e malquisto por seguir esse mantra, por disseminar essa quase filosofia de vida. Nem quero vir com o papo de que a vida ensina, porque nem sempre a gente aprende. Quanto mais cabeçadas tomamos ao longo do caminho, mais entendemos a necessidade de dizer “não”, mesmo desagradando quem amamos. No começo, não é fácil. Depois, a gente se acostuma. Mas precisamos calibrar o dizer “não”, sem nos viciarmos, mas evitando o excesso de permissividades. 

E também faz bem desenvolver a importantíssima habilidade de ouvir “não”. Parece besteira, mas não é tão fácil para todo mundo. Já vivi o desprazer de perder a carteirinha de queridão da galera depois do primeiro “não”, mesmo que antes dele tivesse empilhado milhares de “sim”. Ao primeiro “não posso”, “não quero” ou “não devo”, colocamos nossos vínculos à prova. A incapacidade momentânea e a falta de vontade de seguir certos caminhos já me fizeram ser malvisto e malquisto. 

Mas o alistamento militar, a declaração do imposto de renda e o exame de próstata não são os únicos momentos desagradavelmente necessários da vida. Aprender a ouvir “não” é não desistir a cada negativa, é não levar para o lado pessoal, é entender a necessidade de recalibrar expectativas e objetivos. Às vezes, o “não” joga na cara que é hora de desistir, seguir outro caminho, deixar para lá. 

Volta e meia, tropeço em postagens no Instagram falando, em tom de  superioridade moral, sobre incentivar amigos e familiares. Seja no comércio de bairro ou no talento artístico. Dar uma força, estar presente, mostrar-se ali, ao lado, dando aquele empurrãozinho para o sucesso, mesmo que esse sucesso seja delírio camuflado. A mensagem é bonita, não dá para negar. 

Sou um cara ponderado. Longe de ser “do contra”, evito seguir o fluxo cegamente. Dito isso, também acho importante o desincentivo. Muita coisa ruim poderia ser evitada se disséssemos mais “não”. 

Penso nas figuras públicas, midiáticas, riquíssimas. “Você não gostaria de ser amigo do Fulano, com direito a viagens pagas, ganhando uma fortuna apenas por estar ali, do lado, aproveitando o sucesso do teu camarada da antiga?”, alguém poderá perguntar. Minha resposta é um sonoro “não”. Figuras públicas, midiáticas e riquíssimas gostam de gente bajuladora. Amizade não se compra. Quem bajula, amigo não é. 

Desincentivar não é desestimular, mas não dar palco a ideias absurdas. Desincentivar é colocar os pés no chão, mas sem cortar as asas dos sonhos. Talvez aquele seu amigo ou familiar não precise de incentivo, mas de um sonoro “não”, clareando a mente e voltando ao mundo real. Desenvolver essa habilidade pode evitar prejuízos financeiros e emocionais. Infelizmente, nem todo mundo abre os olhos e os ouvidos para os sinceros e necessários “não” da vida, sempre tão crua, diariamente tão mágica, tantas vezes tão cruel.