Quando você ouvir Gonzaguinha

23 de setembro de 2026 0 Por Leandro Marçal

Lembre-se de mim se suas músicas tocarem no Spotify, se você tropeçar num vídeo de participação ao vivo em programas de auditório vendido como raridade no YouTube, se o algoritmo do Instagram te recomendar um daqueles perfis nostálgicos com a legenda se referindo às saudades de um tempo que não volta mais. 

Não porque eu seja tão magro quanto ele também era, não porque a minha barba também cresça meio desgrenhada, não porque minha visão de mundo pareça traduzida em suas canções. 

Lembre-se de mim quando você ouvir Gonzaguinha porque eu gosto demais das músicas desse cara, falecido pouco mais de um mês depois do meu nascimento. Eu conhecia pouco além do óbvio, mas a tecnologia me ajudou a escutar aqueles álbuns no estilo “Isso é Gonzaguinha” para conhecer muito além do óbvio. 

Li a biografia, vi o filme e a série sobre sua conturbada relação com o Gonzagão, paro para ouvir qualquer nova interpretação de Sangrando, Não dá mais pra segurar ou E vamos à luta e não me sinto superior a ninguém por isso. Só peço que, se eu não estiver perto de você, o meu nome e o meu rosto e as nossas lembranças passem pela sua cabeça no começo da melodia de O que é o que é e você se esforce para recordar as vezes que me reanimei depois do retorno dos meus tantos desânimos. 

Eu sei que você pensará em mim quando não conseguir puxar da memória o nome daquela canção do Chico Buarque que tanto traduz o agora. Também sei que estou na sua lista seleta para o envio de novos sambas e histórias dos antigos pagodeiros. Mas, por favor, coloque-me entre aqueles que também acham que o Gonzaguinha não pode ser esquecido, nem hoje nem nunca. 

Não é grande coisa, mas lembre-se de mim quando ouvir Gonzaguinha porque sempre que o nome dele é mencionado, eu volto a cair na boa areia movediça dos dias e até semanas ouvindo essas tão familiares músicas, que são e serão as mesmas porque um acidente automobilístico impediu novas músicas há mais de 35 anos. E mesmo com a voz calada há mais de 35 anos, qualquer boa interpretação ao vivo de toda tão familiar música do Gonzaguinha é capaz de me emocionar, a ponto de eu esquecer que não passo de um zé ninguém, mas um zé ninguém sempre disposto a ouvir e lembrar quem foi Gonzaguinha. 

Depois de uns poucos e eternos minutos de ouvidos atentos, depois de associar a canção à minha existência e às minhas palavras e às minhas atitudes contigo, lembre-se também que essa quase obsessão saudável me faz bem, mesmo quando fico perdido e não sei mais se ainda existe algo capaz de me fazer bem, e eu começaria tudo outra vez, lembrando de você quando nossas músicas tocarem, especialmente as do Gonzaguinha.