Os guarda-chuvas não são eternos

21 de setembro de 2026 0 Por Leandro Marçal

Quando sou obrigado a encarar um dia chuvoso, prefiro o vento contra do que o sopro forte a favor. No segundo caso, o penteado do guarda-chuva deixa de ser tigelinha, as hastes viram cabelo arrepiado, o apetrecho para não me molhar perde utilidade e fico todo molhado. Gero humor involuntário para quem vê de camarote esse sufoco e me irrito mais que o limite do saudável.

Não faz tanto tempo, meu pai recebeu uma encomenda. Dentro da caixa de papelão, a embalagem de plástico protegia o guarda-chuva comprado na internet. Tem de tudo no comércio digital. E tem quem pague 100 reais numa bugiganga de vida útil curta. Olhos grudados na tela do celular, seguindo as letras formando palavras, se apaixonando pela descrição de imortalidade do equipamento protetor contra dias de nuvens carregadas. 

Me recuso. Não vejo sentido em gastar os tubos num guarda-chuva, num mero guarda-chuva. Se a obsolescência programada é o brinde dos aparelhos eletrônicos, tão caros na parcela do cartão de crédito, evito me iludir com propagandas de guarda-chuvas excelentes, duradouros, imbatíveis. 

Nunca perdi meu tempo com vídeos comparando diferentes marcas de fabricantes de guarda-chuvas. Nem sei se eles existem, sendo sincero. Sempre desconfiei dos camelôs de boa lábia, abrindo os para-águas até nos convencer de levar o melhor guarda-chuva de todos os tempos. São tão úteis e descartáveis quanto uma pá de lixo, cujos cadáveres eu deposito no lixo reciclável para o bem da minha consciência. 

Odeio usar capas. (E não tem nenhuma metáfora de cunho sexual na frase anterior). São péssimas de carregar, não cumprem a promessa de nos protegerem da água caída dos céus. Guarda-chuvas também têm lá suas inconveniências, mas me parecem mais úteis. Prefiro carregá-los numa mochila porque é deprimente ser visto de guarda-chuva na mão quando o chão está seco. Sinto minhas neuroses, paranoias e fraquezas expostas. 

Passo longe de frequentar clubes de desapego, mas evito ser acumulador. Minha estante de livros não é das maiores. Pelo pouco espaço, deixo os exemplares circularem, especialmente quando admito que nunca mais passarei os olhos por essa ou aquela obra. Roupas? De tempos em tempos, faço doações. Não vejo sentido em ter mais de três pares de tênis quando meus pés são apenas dois. 

Com os guarda-chuvas, tenho um por vez. De tamanho médio, porque os eventos extremos provam que não adianta pagar 100 reais, a melhor proteção em dias de tempestade é não sair. Quando o guarda-chuva quebra, compro outro. Nada de item reserva, não vale a pena. Também evito pagar barato demais. E se me vejo obrigado a encarar o tempo lá fora, torço pelo vento contra. Sem metáforas.