Bolsonaristas na Cultura
Se temos o desprazer de cruzar com gente contrária aos direitos humanos, pessoas negras criticando campanhas antirracistas, mulheres justificando feminicídios e LGBTs aplaudindo raivosos homofóbicos, tropeçar em bolsonaristas na Cultura é mais uma aberração de nossos tempos.
Digo Cultura, com C maiúsculo, para ressaltar que trato do ambiente onde circulam os chamados fazedores culturais, o meio artístico, por onde perambulam escritores e escritoras. Se você imagina apenas esquerdistas neste segmento, sugiro abrir os olhos e lamento informar: a vida é complexa, as pessoas são contraditórias.
Não fosse trágico, seria cômico.
Gente com este perfil costuma se esforçar para fazer da política um não-assunto, quase implorando para obras artísticas silenciarem sobre o mundo ao redor, apontando contradições e injustiças da sociedade. Mas também tem quem faz questão de vomitar opiniões ridículas e não solicitadas contra pessoas de bom senso, não-extremistas, legalistas e humanistas, buscando atalhos para justificar inimigos da Cultura comandando a Cultura.
Extremistas de direita também sabem sorrir e esbanjar simpatia nas palavras. São seres humanos, por incrível que pareça. Escondem bem o ressentimento típico de bolsonaristas e garantem boas atuações, fingindo tolerância à gente “diferente” em espaços como feiras de livros e eventos artísticos. O Dramin tem lá suas utilidades, convenhamos.
Como sou um grande filho da puta, no bom sentido do termo (se é que existe…), deixo minhas impressões a conta-gotas depois de tatear o ambiente. Expresso meu total asco ao ex-presidente com penteado nazista (não só o penteado!) sempre que possível, sem necessariamente citar nomes para evitar enjoos. Exponho sua campanha imparável para destruir a Cultura, com C maiúsculo, e noto o constrangimento nos olhos de quem defende o indefensável. Quando a resposta começa com a mistura de “veja bem” com “pera lá”, dou um sorriso irônico.
Me dá vontade de perguntar: caso o golpe pós-derrota eleitoral tivesse dado certo e eu fosse perseguido por seu herói de barro, você me apoiaria, bolsonarista da Cultura? Se meus livros fossem impedidos de circular por conta do progressismo explícito em textos, você se colocaria na trincheira da Cultura? Se extremistas de direita tacassem fogo nessa feira literária, gritando o nome daquele covarde, você correria atrás de extintores ou de gasolina?
A Cultura preza pela liberdade e pela pluralidade. Ninguém concorda com tudo o tempo todo, nem dentro de casa. Mas como a síndrome de Estocolmo é uma condição tratada com acompanhamento psicológico, em alguns momentos é pertinente constranger agentes culturais de mãos dadas com quem lhes quer mortos ou calados.
Se o bolsonarismo alimenta uma visão rasa sobre o funcionamento do mundo, a Cultura, com C maiúsculo, é complexa, mas não deveria ser apolítica e acrítica.

Experimente gritar PALESTINA LIVRE só para ver essa penca de canalhas cair das cadeiras.