Elogio aos meus dentes

23 de março de 2026 0 Por Leandro Marçal

“Você usou aparelho?”, perguntou de bate-pronto.

“Aparelho?”, cometi o péssimo hábito de responder com uma pergunta.

“Aparelho nos dentes!”, agora era uma pergunta-explicação.

“Usei”, respondi com a desconfiança das sobrancelhas dobradas.

“Muito tempo?”, a curiosidade pode viver mais que a esperança.

“Dois anos e meio”, eu não queria esticar o assunto odontológico.

“E faz tempo?”, a curiosidade pode morrer depois que a esperança.

“Tirei o aparelho tem um ano e meio e de lá pra cá uso só a contenção”, respondi mais desarmado.

“Contenção?”, a curiosidade vivia.

“É tipo um aparelho e nos dentes de baixo é fixo”, abri a boca e mostrei a tal contenção fixa.

“E em cima?”, curiosidade rima com imortalidade.

“A contenção de cima é móvel e eu coloco antes de dormir”, respondi completamente desarmado.

“Entendi”, a curiosidade parecia tirar folga.

“Por que a pergunta?”, perguntei.

“Porque os teus dentes são bonitos”, seus olhos miravam minha boca.

Silêncio.

“Bonitos e bem alinhados e bem cuidados”, seus olhos se alinharam aos meus olhos.

Mais silêncio.

“Essa tua dentição dá inveja”, admitiu com um sorriso malicioso.

Constrangimento. Um bom constrangimento. Ainda assim, um constrangimento.

“Que foi?”, a curiosidade não dorme.

“Nem tenho o que falar depois de um elogio desses”, talvez o meu rosto tivesse se avermelhado.

“Não sabe lidar com elogios?”, a curiosidade sofre de insônia.

“Não sei e nunca soube”, admiti.

“Tem que aprender”, me deu um conselho professoral.

“Tenho que aprender”, fingi admitir.

“Vê se aprende”, veio a ordem superior.

“Vou me esforçar”, prometi com sinceridade.

“Vou cobrar”, prometeu com firmeza.

“Pode cobrar”, fingi confiança em mim e na capacidade de lidar bem com as coisas boas.

Chegando em casa, anotei na agenda de papel: marcar consulta de rotina e limpeza periódica. Não suporto ir ao dentista, mas esse investimento está valendo a pena.