Os álbuns da sua vida
Pagode do Exalta, Exaltasamba
O play no Spotify levou músicas pelo fone de ouvido do celular e uma certeza para dentro da sua cabeça: você cantaria todas, sem errar. Domingo, pia com louças pós-almoço em família. Como se falasse sozinho, você balançou a cabeça sarcasticamente. Meses atrás, a sua irmã fez um chá revelação: “Ele usava até brinco de pagodeiro”. A cunhada ficou surpresa, você também. Porque sempre gostou de samba e pagode, mas nunca se viu assim, pagodeiro. Cintura dura, sem habilidades para música. Mas voltou àquele tempo de poucas perspectivas de futuro, é verdade, mas um tempo de shows do Exaltasamba, do Revelação, do Jeito Moleque, do Inimigos da HP. Shows gratuitos, a maioria na orla da praia. Você era bem mais fodido que os seus amigos e ficava sem graça por aceitar caronas e ter menos no bolso para inteirar na conta da cervejinha. Mas você gostava de estar ali e sabia, mesmo inconscientemente, que o tempo sem perspectivas passaria porque precisava passar. Você tinha a obrigação moral de honrar os sacrifícios – para familiares, a “molezinha” – que os seus pais te davam para criar perspectivas. Por algum tempo, você conheceu outros mundos e até se distanciou desse álbum. Mas quando você lava louças engorduradas pós-almoço em família, se sente olhando na cara daquele moleque sem perspectivas e dizendo: “Nós conseguimos, cara. Nós criamos as nossas perspectivas. Umas boas, outras ruins… Mas todas nossas, de mais ninguém”.
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1000 trutas 1000 tretas, Racionais
Quando os álbuns eram chamados de CDs, o amigo da escola te emprestou o começo da sua politização. Não que você não soubesse de onde vinha. É verdade que, em alguns momentos, você tentou se sofisticar como quem descobre novos mundos e sente a necessidade de pertencer, mas deu tempo de acordar desse breve cochilo. Naquela casa dividida com outros parentes, ouvir um álbum dessa lavra chegava a ser perigoso, o risco de despejo por ouvir “músicas de bandidos” era real. O despejo veio anos depois, por motivos ainda mais egoístas, mas essa é outra história. A história aqui é de um CD – cê-dê é muito mais bonito de falar do que álbum, não é? – que serviu como um soco, um despertar. Você tinha um primo que ouvia músicas desses caras e escolheu caminhos não recomendados pelos seus pais. Mas sua visão de mundo ainda era adolescente, solta, largada. Você ouviu uma a uma, mais de uma vez, até a devolução do CD ao amigo da escola, até o download para ouvir tudo aquilo no seu fone, no seu tempo, no seu mundinho particular. O mundão, você começava a aprender, não te daria direito ao silêncio.
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Sucessos inesquecíveis, Elis Regina
Mensalmente, o seu pai recebia um catálogo em casa, preenchia os CDs desejados e possíveis de comprar, devolvia pelos Correios, fazia o pagamento e esperava a chegada no mês seguinte. Talvez tenha sido presente de Dia das Mães. Certo é que a sua mãe ouvia o CD1 na segunda-feira, o CD2 na terça, o CD3 na quarta, o CD4 na quinta e o CD5 na sexta-feira. Parecia chato, mas vocês descobriram juntos que Tiro ao Álvaro é uma música linda. E se você e as suas irmãs tinham a obrigação de se dividirem no único rádio da casa, a matriarca exercia o direito de ouvir Elis uma vez por dia. Sem saber, você tinha a lição de como somos múltiplos. Dá para gostar do Exaltasamba e de Rita Lee, do Raça Negra e de Chico Buarque. Você cresceu estranhando o sentimento de superioridade de quem julga ter gostos mais sofisticados. Demoraria bons anos para você sentir ânsia de vômito com a aversão de colegas literatos por tudo que vem do povo-povo. Pelo tal catálogo, o seu pai também aprendeu e ensinou a ouvir Os Travessos, Sampa Crew, Tim Maia, The Jackson 5. Demorou mais um tempo para você descobrir a playlist Baba MTV, provavelmente criada por alguém que também recebia aquele catálogo mensalmente em casa.
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Acústico no Rio de Janeiro, Natiruts
Você já tinha aprendido a cultivar perspectivas de futuro e de presente quando se encantou demais com o visual daquela gravação, metade das músicas tocadas durante o dia e o restante com o céu mais escuro. Você não tinha aprendido a confiar desconfiando, nem a dar mais valor à própria autoestima. Você percebia que toda aquela construção dos tempos de moleque fodido não poderia ser ignorada. Você aprenderia a deixar de lado a mania de tentar ser descolado. Meio sem graça, às vezes você até ria do passado. Mas um dia, você descobriria que as listas subjetivas, talvez injustas, mais afetivas que qualitativas, criadas enquanto se lava a louça de um domingo pós-almoço em família, dizem muito sobre você e sobre os seus.
