Formador de opinião e assediador nas horas vagas

13 de outubro de 2025 0 Por Leandro Marçal

Vamos imaginar uma situação fictícia, meramente hipotética, sem qualquer relação com este ou aquele fulano, apenas para fins literários. Nela, nosso protagonista é um homem bem-casado e bem-sucedido. Graduado e pós-graduado, ensaiando um mestrado e até um doutorado. Um cara estudado, viajado, letrado. Tantos diplomas lhe renderam boas oportunidades profissionais. Ele merece, alguém dirá. Pai exemplar, outro alguém ressaltará.

Como reconhecimento, nosso protagonista terá direito a uma boa posição profissional. Num veículo de comunicação respeitável, seu crescimento será previsível. A ponto de influenciar na contratação, na promoção e na demissão de pessoas. Volta e meia, opinando no noticiário para o grande público, esmiuçando assuntos de grande relevância. Depois de um tempo, terá artigos ganhando destaque na página inicial do tal veículo de comunicação respeitável.

Ninguém ousa discordar do nosso protagonista. Cada um sabe onde seu calo aperta e todo mundo tem contas a pagar. Melhor evitar a fadiga, diria aquele personagem. Melhor deixar para lá os gritos, as broncas, os chiliques e esculachos na frente de todo mundo. Melhor fingir que não liga, que não leva para o pessoal.

Talvez seja de bom tom se fazer de besta. Como se não presenciasse casos evidentes de assédio moral contra colegas de trabalho. Como se nunca ouvisse as sinistras histórias de assédio sexual, preferencialmente contra profissionais mais jovens, recém-saídas da faculdade, com medo de vir a público para contar sobre convites e mãos inconvenientes, sobre frases invasivas nas reuniões para avaliação de desempenho.

Quando os corredores do veículo de comunicação respeitável sopraram boatos sobre processos trabalhistas e criminais contra nosso protagonista, o clima ficou estranho. Pelo visto, a “capivara” do não-simpático personagem era mais gorda do que pensavam os mais pessimistas e maldosos. O medo de convites para ser testemunha de acusação ou de defesa rondava os pesadelos de um bocado de gente.

Beleza, nosso protagonista era péssimo no trato pessoal, com pitadas de megalomania, sentindo-se acima dos meros mortais no ambiente de trabalho, sentindo-se acima do bem e do mal por onde passava. Mas daí a dar a cara a bater e vomitar verdades escondidas vai uma grande distância.

O sopro dos boatos virou tempestade. Mais cedo ou mais tarde, outro veículo de comunicação jogará a merda no ventilador. Aqueles colegas, sempre comentando as postagens de nosso protagonista com elogios, sempre agradecendo as oportunidades profissionais oferecidas com tanta generosidade, ficarão constrangidos. Se sabiam e até conviviam com vítimas de assédio moral e sexual, por que nunca fizeram nada?

Perguntas difíceis, eu sei. Mas esta é apenas uma situação fictícia, meramente hipotética, sem qualquer relação com este ou aquele fulano, criada apenas para fins literários.