Em um relacionamento tóxico com a Sabesp

3 de novembro de 2025 0 Por Leandro Marçal

Desde antes da privatização da Sabesp, de tempos em tempos a falta d’água em Guarujá e em Praia Grande pautava os noticiários locais da província onde moro, mesmo nos dias sem verão. No WhatsApp, já li centenas de mensagens indignadas em grupos de amigos das cidades vizinhas à minha. E desde a privatização da Sabesp, a falta d’água também é rotina em São Vicente, mesmo para quem mora mais perto do Centro do que dos bairros ignorados pelos engravatados.

Eu sei da estiagem, eu sei da crise climática agravando períodos de seca, eu sei dos reservatórios com estoque crítico, eu sei das obras pela cidade para redução de danos. Não precisa avisar: por incrível que pareça, não sou um idiota ‒ voluntariamente, pelo menos, garanto que não sou.

Mas o relacionamento talvez abusivo da Sabesp comigo, e com outros consumidores da região, e de outras regiões, piorou demais quando a visão da água como mercadoria foi oficializada na bolsa de valores. Até leiloarem esse bem público, ainda recebíamos alertas por celular, ainda existiam avisos nos grandes veículos de comunicação. Anunciavam obras importantes nas ruas do bairro, informavam a secura temporária, especificavam o período em que a caixa d’água não seria abastecida. Podíamos nos preparar, fingiam respeito e consideração.

Depois de alguns meses da transação, este ou aquele sábado nos brindava com a falta d’água surpresa. Sem satisfação, sem contato, sem nada a declarar. E do ano passado para cá, virou hábito manter baldes cheios, plugar uma mangueira na torneira do quintal para puxar água “da rua”, lamentar o chuveiro seco e tomar banho com a ajuda de baldinhos e potinhos.

Em agosto, a nobre empresa anunciou a redução da pressão noturna nas cidades da Grande São Paulo por precaução. Moro a alguns quilômetros, na Grande São Vicente, onde já não somos devidamente informados dos períodos de secura preventiva. Tenho sinceras dúvidas se falta água na casa do prefeito, não apostaria em redução da pressão noturna nos cômodos da residência do governador.

Quando abro uma reclamação no moderníssimo aplicativo da privatizadíssima Sabesp, é comum ver meu chamado interrompido antes do retorno triunfal da água. Nessas horas, lembro da Minha Amiga Engenheira Ambiental, que abriu mão do emprego conquistado via concurso público na antes pública Sabesp: “Cara, tão sucateando tudo pra vender, internamente a pressão tá grande. E não é de água. Tá uma porra essa empresa, vou vazar”, me disse há alguns anos. Também lembro do simpático Funcionário Sem Culpa num raro atendimento das minhas tantas reclamações: “Tá chovendo, mas é de reclamações. A gente nem dá conta, e a turma lá de cima não quer nem saber”, falou baixinho.

Ciente de viver num relacionamento tóxico, não posso me separar. Mesmo com a boca seca, mesmo gastando mais desodorante, mesmo estocando garrafas de água mineral, mesmo abrindo reclamações no aplicativo da Sabesp, mesmo sem direito a satisfações públicas dessa empresa privada.