Em busca da meca santista

20 de outubro de 2025 0 Por Leandro Marçal

A meca santista é um mistério, intrigando moradores da Baixada Santista. Trata-se de uma interrogação metropolitana que não se restringe a Santos, cidade mais conhecida entre as nove dessa região litorânea do estado de São Paulo. Basta uma pesquisa simples nas ferramentas de busca para encontrar a iguaria intitulada prato típico da região. Mais que isso: visto como símbolo local, é considerado patrimônio gastronômico.

Nossa equipe de reportagem foi às ruas, porque lugar de repórter é na rua!, para investigar os segredos da meca santista. Nos bares de esquina, nos restaurantes de bairro, nas biroscas sem nomes estrangeiros e nos estabelecimentos que aceitam vale-refeição não há sinal da suposta conterrânea.

A receita é simples, segundo sites da região: o peixe grelhado é o protagonista, acompanhado pelos coadjuvantes risoto de palmito pupunha, farofa de banana da terra e simpáticos camarões. Quando falta assunto para esses mesmos sites da região, algum profissional da culinária é convidado às pressas para ensinar a receita e também preencher a empolgante grade de programação das emissoras locais.

Menos simples que o preparo é encontrar amantes do tal prato típico. Durante meses, percorremos almoços de domingo e interrompemos jantares românticos. Nada da meca santista. Tentamos entrevistar especialistas no assunto, mas lamentamos a falta de referências. Enfrentamos filas de peixarias humildes e conversamos com comerciantes de pescados. Feito o caviar de Zeca Pagodinho, a resposta comum “nunca vi, nem comi, eu só ouço falar” foi repetida à exaustão, causando ainda mais estranhamento em nossa equipe de reportagem.

Mas somos profissionais incansáveis, leitoras e leitores. E chegamos ao seguinte fragmento, reproduzido sem exclusividade: “Essa história [a meca santista] começa em 2005, quando a Prefeitura de Santos, em parceria com a Universidade Católica de Santos e o Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares da Baixada Santista e Vale do Ribeira (SinHoRes), decidiu criar algo que a cidade ainda não tinha: um prato típico que representasse verdadeiramente a essência santista”.

Tentamos contato com linguistas, professores de português e até psiquiatras para questionar se não há contradição no ato de criar artificialmente um prato para chamá-lo de típico e representar a essência de uma cidade, mas as mensagens foram enviadas em horário de expediente e não obtivemos resposta até o fechamento desta investigação jornalística. O espaço permanece aberto para esclarecimentos sobre a meca santista, acusada de lenda urbana por populares anônimos, que preferiram não se identificar publicamente por medo de represálias.