Capa de revista
Guardo minha pesada coleção de revistas numa caixa plástica expositora vazada hortifrúti agrícola verde. No espaço possível do meu quarto, ao lado da mesa onde escrevi este texto, repousam as edições da piauí de junho de 2019 até a mais recente. Doei as mais antigas, de quando virei assinante do periódico mensal ainda em 2015. Também sobraram umas publicações futebolísticas, dos álbuns de figurinhas das Copas do Mundo de 2006 a 2014, passando pela falecida (falecida?) revista do São Paulo FC. Tenho, também, edições de jornais do dia seguinte ao centésimo gol do Rogério Ceni. Encartes de espetáculos teatrais e eventos culturais também se acomodam ali.
Deu para perceber que sou um entusiasta do impresso. Eu sei, eu sei: em tempos digitais, o papel-jornal e a revista parecem datados. Tem quem defenda, sem muitos argumentos, que o livro físico também está com os dias contados. Tive minhas temporadas de assinante da Folha de S. Paulo, do Estadão, de A Tribuna. Na infância, lia o Agora São Paulo na casa dos meus padrinhos. Talvez a minha escolha profissional desse sinais de vida desde cedo.
Me informo lendo sites de notícias e me aprofundo em determinados assuntos com newsletters, podcasts, acompanhando análises de especialistas. Não confio em tudo que aparece nas redes sociais pela falta de vocação para ser um completo otário. Mas, confesso, passo longe do saudosismo barato. A vida se digitalizou e nem teria onde amontoar jornais velhos em casa, mesmo que me ajudassem com as sujeiras dos bichos em casa.
Com as revistas, é diferente. Na faculdade, falavam em textos mais aprofundados. Nem sempre isso é verdade, mas algumas vezes isso é verdade. Gosto de folhear antes de me sentir mergulhando em escritos que vão além da notícia do dia. Meses atrás, quando enviei a foto da minha coleção num grupo de WhatsApp, perguntando se alguém aceitava a doação daquele monte de páginas velhas, o amigo M.K. enviou um áudio, em tom de quase ameaça, considerando absurdo eu cogitar me desfazer daquela preciosidade, daquela raridade. Palavras dele.
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Quando meu amigo jornalista Guilherme Lucio da Rocha publicou nos stories do Instagram trechos da sua reportagem na Billboard Brasil com o cantor Thiaguinho, minha conta bancária chorou. Para desespero de educadores financeiros não solicitados, previ a necessidade irracional de comprar aquela edição.
Tentei justificar a aquisição rememorando os incontáveis shows do Exaltasamba nas praias de Santos, São Vicente e Praia Grande na primeira década deste século. Recorri aos tempos do reality show musical Fama, que assistia com minha mãe e irmãs na sala de casa, e que Thiago André não venceu ao ser eliminado em disputa com Marcus Vinile.
Entrei num link e comprei a edição da revista por quatro motivos decentes: eu queria comprar, eu tinha o dinheiro, eu sou adulto, eu pago minhas contas.
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Quando lancei Me vê dez médias no quintal de casa, deixei a revista guardada ao lado da mesa onde escrevia as dedicatórias no livro. Não podia esquecer de entregá-la ao João Vitor, amigo de uns vinte anos, fã de samba, do Thiaguinho e de um coirmão paulistano no assunto futebol.
Toma que é tua, falei. Presente?, ele perguntou. Presente, eu respondi. Não custa nada, eu continuei. Eu já li, expliquei. Tem que circular, completei.
No lançamento, o João – porque sou o tipo de gente que chama pessoas de nome composto apenas pela primeira alcunha – comentou comigo sobre a viagem do mês seguinte. Junto com a esposa Mahara, percorreria a Europa, num daqueles sonhos de tanta gente, realizado por nem tanta gente. Legal, eu comentei. Que foda!, eu me exaltei. Tire fotos e conte tudo na volta, eu cobrei.
Se não for sensitivo no sentido mais metafísico da expressão, o João é um dos caras mais sensíveis que conheço. Definição minha, visto como sensível por gente que me lê (isso não é ficção, juro). Nos dias antes da viagem, quando checamos e rechecamos os itens guardados nas malas, o João foi invadido pela ideia absurda de levar a tal revista para o solo europeu. Talvez fosse um recado de Deus, dos deuses ou dos orixás, avisando que ele encontraria o cantor no outro continente e teria a oportunidade de pedir um autógrafo na revista onde foi a reportagem de capa.
Na minha mente ficcionista, imagino o João chacoalhando a cabeça, tomando bronca da esposa, segurando a revista e encarando-a, como se dissesse a uma criança que o pai vai e volta logo, se esforçando para largar pelo caminho o pensamento disfuncional. Onde já se viu, levar aquela papelada na bagagem de espaço disputado para tão longe? A revista e a ideia absurda ficaram no Brasil. Também no Brasil, ouvi um áudio de WhatsApp na semana passada.
“O meu voo pra sair daqui, de Portugal, é nessa madrugada, tá? Então, eu tinha que ir pro aeroporto à noite, porque nas regras de check-in em voos internacionais, tem que chegar muito antes. E se a gente fosse ficar onde tava hospedado, tinha que pagar outra diária. Só que, de manhã, fomos tomar café com uma amiga, moradora de Dublin, mas que tá passando uns dias por aqui. Ela deu uma sugestão: fazer check-out, não pagar outra diária e gastar com locker, deixar as malas guardadas no aeroporto e curtir, aproveitar a cidade. E, de fato, o último rolê que a gente tinha programado era a cinco minutos do aeroporto. Bairro Oriente, que eles chamam de ‘Dubai portuguesa’. Então, meio que a ideia casou, ou seja, não era pra eu tá no aeroporto aquele horário, a gente só foi pra guardar as malas num locker e sair pra curtir a vida. Mas quando a gente tava chegando no aeroporto, conseguimos ver um músico da banda do Thiaguinho. Um só! E a gente ficou naquelas de: ah, ok, devem tá por aí, mas nada demais. Porque a gente sempre acha que o artista principal voa separado, essas coisas. Mas aí a gente foi seguindo nosso caminho normalmente, e vimos ele. O Thiaguinho. Supernatural, parado no meio de uma galera. Aí, a Mahara viu primeiro, largou minha mão, correu e pediu pra tirar uma foto. Eu consegui parar do lado e até conversei um pouco. Agradeci pelas músicas, falei o quanto me impactam, na vida de um pagodeiro, na vida de um moleque preto que começou a ouvir o som dele há bastante tempo, desde o Exalta. E foi isso, foi isso. Não era pra eu tá no aeroporto, foi puro acaso, por uma dica dada no café da manhã, que a gente acatou. E deu bom. E olha que, sei lá, tô aqui a semana toda, ele já tava aqui também, quase todos os dias, eu via nos stories, ele num lugar onde eu tinha passado, só que meia hora depois. Frequentamos os mesmos ambientes, mas em momentos diferentes. Aí, quando desencanei, já tinha até ido pro show dele aqui, tava relaxado, deu isso aí. Essa é a história”, contou em dois minutos e quarenta e oito segundos, num tom falsamente blasé.
Terminei de ouvir o áudio, olhei minha coleção de revistas antigas e pensei nas histórias capazes de render grandes textos, desses que me sinto incapaz de escrever.
