Calote Cast
Vou te contar uma boa. História maluca, tu vai me zoar, vai rir da minha cara, vai duvidar, vai perguntar se não é ficção, se não é “conversinha de escritor”, mas é verdade: tomei calote de um podcaster conhecido no mundinho dos podcasts de entrevistas. Pra piorar, foi calote de livro, e puta que pariu!, que tipo de gente dá calote de livro?
Me sinto feito de otário. Explico: um não tão belo dia, abri o YouTube pra dar play num vídeo qualquer, como companhia durante o expediente. Pra dar aquela matada no tédio do trabalho de casa. Caí numa entrevista com um famoso narrador esportivo, de rádio, das antigas. Tu sabe, eu sempre tive minhas obsessões, e o rádio era uma delas, e talvez por isso eu ouça muitos podcasts.
Dei play nas quase duas horas do papo entre o famoso narrador esportivo com o tal podcaster, o caloteiro, sem saber que ele era caloteiro. É aquele, meio superestimado, cabelo claro, olho claro, notebook ainda mais claro em cima da mesa, falador de besteiras futebolísticas pra caçar aquela viralizada. Sabe quem é? Esse mesmo!
Daí que esse tal podcaster passou duas horas entrevistando o narrador esportivo sem tocar num assunto importante da carreira do narrador esportivo. Achei meio absurdo, faltou pesquisa, faltou coragem, sei lá. Sei que pra quem tem um canal de grande projeção, não fazia sentido ignorar esse assunto importante da carreira do narrador esportivo. Meio de expediente, tarefas entregues, fiz o que qualquer pessoa educada faria: chamei o tal podcaster no Instagram e tentei puxar assunto, cordialmente, com respeito, muito respeito!, numa crítica construtiva, sobre eu achar uma falha grosseira ignorar esse assunto importante da carreira do narrador esportivo.
Pensei que seria xingado, esculachado, bloqueado. Grata surpresa: o tal podcaster me respondeu, falou que o assunto importante da carreira do narrador esportivo tava no roteiro, mas as coisas se encaminharam pra outro lado e ficou por isso mesmo. Fazer o quê?, faz parte, acontece, bola pra frente. E seguimos trocando ideias, sempre com cordialidade e respeito, muito respeito!, seguindo a linha da crítica construtiva, até que o papo chegou em livros, e o tal podcaster também publicou livros. E de crônicas. Propus uma troca, o meu último pelo último dele, e passei meu endereço, e ele passou o endereço, e no dia seguinte fui na agência dos Correios pra enviar um exemplar do meu livro de contos de futebol, assunto pertinente ao tal podcast de entrevistas do tal podcaster meio famosinho.
Por uma semana, acompanhei o código de rastreamento no aplicativo dos Correios, o livro chegou, o tal podcaster ficou de confirmar quando voltasse de viagem, passou mais uma semana e eu perguntei se o livro tinha chegado mesmo, e não tive resposta, e mais outra semana, e o tal podcaster visualizou minha mensagem, e não confirmou porra nenhuma!, nem enviou o dele, e daí “perdi” um exemplar do meu livro. Vai ver que o respeito à minha crítica construtiva tenha sido armadilha pra me fazer de otário, e preciso ter a humildade de admitir que o tal podcaster me fez de otário, se vingou da crítica construtiva, e pra um escritor independente cada livro físico importa, mas acho que o tal podcaster quer que eu me foda, então que se foda ele também.
Me desinscrevi do canal do YouTube do tal podcaster e prometi nunca mais clicar num mísero vídeo dele. Pra mim, o programa agora é o Calote Cast.
Mas ó, se liga, hein? Vê se não espalha, não conta pra ninguém. Eu até pensei em escrever uma crônica sobre o “causo” do calote, mas não quero ser acionado juridicamente, nem prejudicado profissionalmente, por que tá cheio de vaidade nesse meio dos supostos famosos. Preferi te contar assim, na miúda, mas fica entre nós, só entre nós, muito cá entre nós.
