Alerta de ironia

17 de novembro de 2025 0 Por Leandro Marçal

Explicar uma piada é frustrante. Decorar o texto, variar a entonação, encontrar o momento certo e… o silêncio. Não porque a anedota foi sem graça, mas pelo puro não entendimento de quem a ouviu. A obrigação de destrinchá-la para, quem sabe?, gerar uma risada atrasada. Explicar uma piada é triste, pode ser deprimente, sempre será constrangedor.

Com a ironia, é parecido. Numa definição rápida, essa figura de linguagem expressa o oposto do que é dito, com intenção humorística, crítica ou de sátira. Seu uso depende do contexto da vez, com a mensagem real sendo contrária ao sentido literal das palavras expressas.

Ao longo da vida, fui acusado de ser irônico. Não nego, nem confirmo. Quando fico muito irritado – o que é raro, dizem –, posso recorrer à ironia extrema para não levantar a voz, agredir pessoas ou perder trabalhos. Acontece, sou humano. Por isso, eu mentiria se dissesse que foram poucas as vezes que ouvi: “Tá zoando, né?”. Também seria cretinice da minha parte omitir uma frase comum em certas ocasiões: “Sem ironia, é sério”.

Nessas horas, me sinto explicando a piada. Bate uma tristeza, vem a crise existencial. A ironia morre quando é anunciada. De desgosto, de mau súbito.

Em outros tempos, pessoas influentes não se intitulavam influenciadoras. Quando quero seduzir alguém (também sou filho de Deus!), não aviso com antecedência sobre minhas intenções. A crise de imaginação é uma das causas da atual epidemia de pessoas literais, incapazes de ler nas entrelinhas, cegas às variações de contextos, sem condições de aprofundamento além das obviedades. Nesse cenário, muita gente se vê na obrigação de assinar documentos em três vias, registrando-os em cartórios e levantando-os durante diálogos: “Tem uma ironia aqui, gente!”. Assim, mastigadinho, evitando a trabalhosa interpretação.

E nada é tão ruim que não possa piorar. Quando li o “não ironicamente falando” nas redes sociais pela primeira vez, pensei que era ironia. Que algum amigo internauta tinha inventado essa expressão ridícula com a nobre intenção de ironizar quem não domina a mais nobre das figuras de linguagem.

A boa ironia não usa uniforme de identificação, com número e nome atrás das costas, feito time de futebol. Não tem crachá, RG, coleira ou pulseirinha colorida de livre acesso ao camarote. Quando topo com alertas de ironia, penso em recorrer às armas.

Falo sério, mesmo sendo ficcionista. Falo muito sério! Sem piada, nem ironia. (Desculpa, não resisti!).