Você fala de mim na terapia
Porque eu te traumatizei. Fui tóxico, como dizem por aí. Prefiro dizer que fui péssimo contigo, fui egoísta, como nunca deixei de ser. Reconheço. Eu sabia da tua dependência emocional, claro que sabia. E me aproveitei dela, como bom filho da puta que sou. Depois, toquei o barco, segui a vida, te deixei com um buraco no peito. Um vazio difícil de ser preenchido. Você precisa falar de mim na terapia e se martiriza ainda mais por isso.
Toda semana, você pensa no que falar para a psicóloga, tentando se convencer a não gastar uma só palavra comigo. Eu não mereço a tua angústia, a tua ansiedade, eu não mereço um mísero segundo da tua saliva enquanto trata a saúde mental. É o que você diz. Mas a sessão começa e, quase num piloto automático, você passa mais de quarenta minutos reclamando de mim, lembrando de mim, da minha responsabilidade na tua culpa. De como sigo na tua mente, mesmo depois de tanto tempo.
Você até sonha comigo. Nos pesadelos, te obrigo a ouvir outra vez tudo aquilo de cruel que te falei. Nos pesadelos, te obrigo a reviver todos os piores momentos, sem dó, sem esquecer o mal em cada atitude lamentável da minha parte. Você acorda com o corpo ensopado de suor e passa dias buscando explicações lógicas e racionais por eu te atormentar até quando dorme, tanto tempo depois do nosso distanciamento. Obviamente, você não encontra essas explicações lógicas e se martiriza ainda mais por ter confiado em mim, por ter depositado tantas expectativas em mim. Você reconhece as próprias fraquezas, mas se frustra porque esse reconhecimento parece não adiantar nada para me deixar para trás. Talvez pelos bons momentos? Vai saber.
Se eu posso te dar um conselho, diria para não largar a terapia. Esse girar em círculos, essa impressão de que não há avanços e de que não adianta nada perder duas horas da semana para se tratar é uma impressão falsa. Vai te fazer mal antes de fazer bem. Faz parte do processo, é assim que as coisas funcionam. Não tem botão de liga/desliga para você me deixar para trás, é dia a dia, semana a semana, sessão a sessão. Não tem solução mágica e você sabe disso, mas não quer admitir.
Me ouve, dessa vez não são palavras cruéis: é melhor continuar na terapia.
Mesmo quando você se sentir mal por falar de mim outra vez, por relembrar as mancadas que dei, as feridas que deixei, o buraco emocional que te causei. Quando você menos perceber, vou deixar de ser assunto aos poucos, bem aos poucos, até você deixar de falar de mim na terapia e eu virar um tema esporádico, um borrão na memória, um dia esquecido de outro tempo, de outra vida. Pela última vez, pode confiar em mim.
