Tio Dan precisa de orações
“O Dan é teu padrinho, deixa a picuinha política de lado e vai lá. Diz tua prima que ele quer te ver. Se organiza e dá teus pulos!”, minha mãe ordenou, fingindo sugerir. Durante a semana, combinei a visita com a Duda. Numa tarde pós-almoço de domingo, já organizado, dei meus pulos e toquei o interfone no conjunto residencial de pequenos imóveis geminados, a meia hora de casa.
Deixei meu par de tênis na porta e pisei descalço no chão frio da sala. Magérrimo, o Tio Dan envelhecido e adoentado pouco lembrava o Tio Dan da minha infância. “Meu afilhado, senta que vai começar o jogo, quer beber uma água?”, usar o futebol como pretexto para aproximações é herança familiar. Sentei ao lado do irmão da minha mãe, a prima se distraía no celular na poltrona individual, no canto da sala.
Vinheta de abertura da transmissão no pay per view. A voz feminina saudou os amigos ligados em todo o Brasil, convidando-nos a acompanhar mais uma rodada do futebol nacional. “Puta que pariu, hoje vai ser difícil não colocar a TV no mudo”, Tio Dan falava num tom decepcionado, talvez com medo de chatear o afilhado ao reclamar da mídia escalando mulheres para narrar futebol.
Balançando a cabeça, Duda reprovou a atitude paterna, mantendo-se paciente para não ensaiar um discurso contrário a quem evitamos contrariar pela saúde fragilizada. Muda, levantou-se em direção à cozinha. Também mudo, pensei em como até no jeito de andar ela se parece cada vez mais com a falecida Tia Sônia.
“Não dá. Papo de homem: mulher narrando futebol, com aquela voz aguda, não tem a menor condição. Sou velho, mas o certo é o certo. Já não bastam elas dando pitacos, certas coisas não têm que forçar, não têm que mudar”, Tio Dan talvez esperasse minha confirmação, fosse por concordância ou respeito. Desviei o assunto e perguntei quais jogadores do nosso time estavam suspensos.
A prima voltou com pedaços de bolo de chocolate, cortados em quadrados geometricamente idênticos. “Pai, vai com calma”, a bronca preocupada vinha de quem via meu tio colado aos doces e ao cigarro, mesmo a essa altura da sobrevida. O mundo dá voltas, pensei. Na adolescência da Duda, o Tio Dan a proibiu de seguir o sonho de jogar bola profissionalmente. “Futebol é coisa de macho e eu não quero mulher-macho debaixo do meu teto”, dizia para quem quisesse ouvir.
Os filhos homens nunca se interessaram pelos campos. Danielzinho cumpre pena por tráfico de drogas, Danilo mora longe e a família desconversa sobre o mandado de prisão pelos tantos rolos mal explicados. Sobrou para a caçula, recém-divorciada, tanto tempo longe dos estádios, se equilibrar entre os cuidados com o velho Dan, a educação da Dudinha e o trabalho num escritório nos dias de semana.
“Essa é aquela que te falei, Duda”, no intervalo, apontei para a comentarista. “Foi minha colega de sala na faculdade. Gente finíssima, até passei cola pra ela”, compartilhei um riso frouxo e despretensioso com minha prima. Tio Dan não pareceu alegre: “Cada uma, viu? Tinha que ser…”
Fim de jogo. Papos familiares se sobrepuseram ao som do programa de auditório. Me despedi da Duda, prometi ao Tio Dan outra visita. No dia do clássico, dali a três semanas, combinado, sem falta. Em casa, antes de dormir, rezei para meu padrinho melhorar. Tio Dan precisa de orações!
