Sensível

24 de novembro de 2025 0 Por Leandro Marçal

“Dá pra perceber que tu é um cara sensível”, ouvi assim, de bate-pronto, sem aviso prévio, entre simpáticos copos de cerveja. Os olhos verdes me encararam atentos e os encaracolados cabelos castanhos prestavam atenção no meu silêncio. “Tô falando sério, nunca te falaram isso? Tu é um cara sensível, muito sensível”, continuou.

Passei uns bons dias com aquele papo de bar na cabeça. Sensível, eu? Não me senti ferido, nem com a masculinidade afetada por essa percepção. Longe disso. Para mim, foi um elogio dos grandes. Mas sou ruim de lidar com elogios, mesmo os menores. Tenho problemas com autoimagem ainda mal resolvidos em terapia.

Ser chamado de sensível me pegou de surpresa. Por algum tempo, me achava bem racional e via alguma virtude nisso. Um tipo que só toma decisões bem pensadas, analisadas e ponderadas. Meio frio, meio impassível. Fugindo das fortes emoções, do riso aberto e do choro escancarado. Como se demonstrar sentimentos fosse a exposição de certa vulgaridade. Cresci e melhorei, eu era apenas uma criança jogando videogame com o controle quebrado.

Sou um homem sensível, repeti me olhando no espelho. Tenho um nariz largo, um rascunho de barba e um ex-cabelo como características físicas evidentes. Mas a sensibilidade, ninguém me alertou sobre a sensibilidade.

“Pra caralho! Claro que é. Para de graça, quer confete? Todo mundo que te conhece sabe, não tem novidade nenhuma”, ouvi num áudio de WhatsApp, repercutindo a frase do bar. “Se não fosse, não conseguia escrever esse monte de coisa pra tu e pros outros, umas com o teu nome e outras pra pagar as contas. E isso é bom, é ótimo ser tão sensível assim!”, vinha outro áudio na sequência.

Não sou fã de filmes de super-heróis, mas me coloquei na pele de protagonistas perdidos na vida ao descobrirem um superpoder. O que vou fazer com essa tal sensibilidade? Posso melhorar meu entorno e usá-la contra as desumanidades cotidianas?

Artistas são sensíveis. E ainda não consigo me intitular assim: artista. Sou só um careca escrevendo uns textos por aí. Palavras são meu pão de cada dia, mas são só palavras. Minha literatura acontece na rua, em casa, num bar, sem tirar os pés no chão, com sutileza e sem afetação, sem me apegar a grandes e mirabolantes acontecimentos. Minha literatura nasce da sensibilidade, alguém dirá.

Pensando bem, essa epifania deve ter um pouco de verdade. Preciso me acostumar a essa nova-velha verdade, vou repetir bastante essa verdade, tentando não soar vaidoso, sem levantar a voz, prestando atenção nas pessoas, sem me desprender do agora, valorizando o sentimento e a emoção na hora certa, como também a racionalidade tem sua importância. Não quero parecer arrogante, nem me sinto melhor do que ninguém, mas devo admitir: sou um cara muito sensível.