Palavras-coringa

2 de fevereiro de 2026 0 Por Leandro Marçal

A riqueza do nosso idioma me espanta. No bom sentido. É impressionante notar as tantas variações linguísticas, de acordo com a região, o grupo, a comunidade utilizando o mesmo linguajar, com aquelas expressões e palavras e frases típicas com um significado específico para determinado contexto.

Poderia passar muitas linhas falando de como o português, e especificamente o português brasileiro, é infinitamente mais versátil e cheio de nuances do que o inglês, aquele idioma pobrinho em que “você” e “vocês” são a mesma palavra, o pretérito é praticamente um só e não tem o nosso mais-que-perfeito, tempos verbais são caracterizados com uma palavra e o verbo em si não se modifica. Fracos, muito fracos.

Pessoalmente, gosto das nossas palavras-coringa. O significado literal pode até ser sem graça, mas podem se aplicar de um jeito amplo, riquíssimo, cheio de outros significados que nem todos os dicionários são capazes de coletar.

Parece loucura minha? Talvez. Mas “beleza” é mais do que “boniteza”. Vale mais que um “ok” sem graça, meio corporativo-marqueteiro. Tá tudo beleza. Beleza, entendi. Beleza como resposta seca, curta, direta, demonstrando irritação. Palavra bela, não? Dela, deriva-se o “firmeza”, sem necessariamente ter a ver com força. Firmeza no sentido de tudo certo, tudo bem. Ou no sentido de “beleza, mas tô de olho em você”. “Beleza” e “firmeza” devem ser primas de “tranquilo”. A aplicação pode ser a mesma. Tranquilo, eu aceito sem concordar. Tô tranquilo, tô na minha, tô só de butuca.

“Firmeza” deriva de “beleza” e as duas são primas do “tranquilo”. E o “tá”? Beleza (rá!), pode ser mera contração do “está”, verbo estar conjugado na terceira pessoa do singular no presente do indicativo. Mas quando sozinho, isolado, seguido do ponto final ou da exclamação, parece um parente distante dos três primeiros citados, não parece? Tá, entendi. Tá, vou fingir que acredito. Tá, pode encerrar o assunto porque não aguento mais te ouvir.

Falei bobagem? É foda. Você sabe o que é foda e sabe que “foda” é outra palavra-coringa. Foda no bom sentido. Foda no sentido de “mas que bela merda”. Foda no sentido de “que pessoa intragável”. Foda no sentido de “puta que pariu!”. Sem querer esticar o parágrafo dos palavrões (minha mãe se incomoda e me lê), não dá para esquecer que o próprio “puta que pariu” e o “cu” também são palavras-coringa, multiuso, com aplicações diversas.

Fora o “opa”. Que serve de “oi”, de “beleza” e “firmeza” e “tranquilo” e “tá”, mas também de “foda” e “cu” e “puta que pariu”. Em tempos de tantos gestores falando em produtividade, o “opa” renderia um textaço que ninguém pediu no LinkedIn, não?

Termino esse pensamento alto me despedindo com o famigerado “falou”. Quem falou o quê? Por que ele toma o lugar do “tchau” em conversas informais? Por que nunca consegui escrever meu sonhado texto com o título “Por que falamos falou?”? Não sei, não quero saber, mas não tenho raiva de quem sabe. Enfim, vou nessa, valeu (outra palavra-coringa), falou!