Meus cumprimentos

9 de março de 2026 0 Por Leandro Marçal

Chego minutos depois da hora marcada, tentando driblar a pontualidade patológica, vejo gente conhecida e desconhecida, me olham, quero acenar de uma só vez, esticando o oi num cumprimento coletivo. Paro. Penso. Posso soar arrogante, estúpido, mal-educado, metido a besta. Melhor cumprimentar um a um, uma a uma. Mas como?

Entre homens, certa boa etiqueta indica o aperto de mão. Não muito forte para não parecer ogro. Não muito fraco para não dar a impressão de blasé, de quem se considera a última bolacha do pacote, a ponto de subestimar a importância da boa saudação, do olho no olho.

Caso encontre alguém descolado, deslizam-se as mãos, fechando-se e dando-se um soquinho. Tem a variação das palmas se tocando no lugar do soquinho. Toques de mão mais elaborados pertencem a grupos específicos, exigindo coreografias complexas, de dar inveja a bailarinas e dançarinos.

Convenhamos: os tempos mudaram. Não precisa provar nada para ninguém, e ninguém vai te encher o saco por cumprimentar outro cara com um abraço. Não precisa ser aquele abraço de lado, afetado e constrangedor. Não tem problema abraçar de frente, porque assim são os verdadeiros abraços.

Beijo no rosto, por que não? Sem emular o mafioso tocando o rosto dos comparsas, não é isso. Falo do beijo carinhoso, fraternal, bonito de ver. Quem se incomoda precisa de ajuda psiquiátrica com urgência.

E as mulheres? “Não se beija o rosto de mulher casada, noiva ou com namorado, tem que apertar a mão e tá bom demais”, ouvi há muitos anos de uma moça meio atrasada, meio infantil. Só sei o que se passa dentro da minha cabeça e nem sempre entendo o que se passa dentro da minha cabeça. Quanta gente conhecida e desconhecida também não se incomodaria por ser meio atrasada e meio infantil?

Se já sou um cara sem graça por natureza, nessas horas fico ainda mais sem graça, sem saber o que fazer. Viro um carro engatado na segunda marcha, andando aos trancos e barrancos, demorando uma eternidade para concluir o percurso. Devo soar arrogante, estúpido, mal-educado, metido a besta. Também posso parecer invasivo, folgado, espaçoso, deselegante, desnecessário.

Quando tiro fotos, não sei o que fazer com as mãos, penduradas ao lado do corpo, com joinhas e hang looses artificiais. Me sinto assim nos cumprimentos. Meto o foda-se e distribuo apertos de mão, beijos e abraços sem afetação. Melhor assim. Em outros tempos, preferia entrar mudo e sair calado, passando despercebido e fugindo dessa formalidade. Sou humano, também gaguejo nos gestos.