Meu Vereador

19 de janeiro de 2026 0 Por Leandro Marçal

Encontrei o Meu Vereador por acaso, a uma quadra da Câmara Municipal. Eu dava passos rápidos até a improvisada rodoviária da cidade, tinha uma reunião importante em São Paulo na manhã seguinte. Ele, com dois assessores ao lado, andava apressado na direção da suposta Casa do Povo. Bem, “encontrei” talvez seja exagero. Vi e cumprimentei de longe, sem tempo para muitas palavras. Mas o Meu Vereador gesticulou, sinalizando a promessa de me chamar no WhatsApp, precisava trocar ideias comigo.

Tenho idade e malícia suficiente para desconfiar das promessas de um político profissional, mas dei um voto de confiança para o Meu Vereador. Porque o Meu Vereador é o Meu Vereador, não é qualquer político profissional.

Fazia tempo que não nos víamos, desde sua reeleição. Estudamos juntos no Ensino Médio, tínhamos alguma proximidade. Desde aquela época, ele falava da necessidade de entrarmos na política, de sermos agentes de transformação social. Quando jovem, o Meu Vereador já sabia se comunicar bem. Muito bem! As meninas do colégio e da faculdade que o digam, os tempos sem mandato eram pouco religiosos e moralistas.

Precisamos marcar um café, ele me disse por mensagem. Tenho planos para este ano e quero contar com gente boa, gente do bem, gente inteligente, gente igual a você. O Meu Vereador é bom de lábia. Vamos marcar, eu respondi no maior estilo “na volta eu vejo”. Mas o Meu Vereador marcou uma data. Sexta-feira, depois do expediente. Do meu expediente, porque expediente às sextas não é costume na autointitulada Casa do Povo.

Procurei o perfil do Meu Vereador nas redes sociais. Fiquei enjoado ao ver assessores batendo palminhas e fazendo comentários típicos de puxa-saco em todas as postagens para melhorar o engajamento. Lembrei que, tempos atrás, me indignei com votos contrários ao bem-estar da população, mas mui simpáticos ao lobby de empresários. Eu até tolero as alianças do Meu Vereador com cretinos porque a política tem dessas coisas. Abraçar comerciantes de substâncias ilícitas e mercadores da fé alheia faz parte do metiê.

Eu me espantava, mas não me surpreendia com as postagens cheias de sorrisinhos forçados, indignação mal encenada, montagens coloridas e trends esdrúxulas. Rotina atribulada nas redes pelo bem da cidade. É o que dizem. Confesso: me comovi com o convite para tomar um café e trocar ideias.

Mas minha malícia não foi suficiente. Pensei nas histórias com as dificuldades para tirar nota 5 na escola e juntar dinheiro no comecinho da juventude, só que a nostalgia não foi assunto. Na verdade, o Meu Vereador quis deixar claro que conta comigo neste 2026. Sou escritor, bem articulado, me comunico bem. Sou um bom nome para trabalhar na candidatura a deputado estadual em outubro. Trabalhar não, ajudar. O verbo usado foi ajudar. A sugestão de falar com meu raro público sobre o trabalho do Meu Vereador ao longo do mandato e meio para dar-lhe uma chance na assembleia legislativa veio recheada de eufemismos.

Nada de proposta profissional ou salário decente para trabalhar na campanha. Esquece essas formalidades burocráticas. O Meu Vereador se interessa pela minha pouco brilhante imagem de artista para influenciar, como posso, o ambiente cultural da aldeia, buscando garantir sua cadeira no parlamento estadual. Tentei me esquivar, fiquei de dar uma resposta, fiquei sem graça, preferi não ser ríspido. Senti um gosto amargo no café, o Vereador não é tão Meu quanto apostei ao teclar seu número na urna eletrônica anos atrás.