Me perdoaram

24 de fevereiro de 2025 0 Por Leandro Marçal

Nunca lidei bem com o perdão compulsório. Para muita gente, quem não aceita um pedido de desculpas é arrogante, carrega amargura, é incapaz de seguir em frente. Não custa lembrar: ninguém tem a obrigação de nada. Quem não topa o pedido de perdão improvisado, protocolar e capenga pode não ter digerido a mancada ou maldade, pode não acreditar na sinceridade daquelas palavras, pode até ganhar mais julgamentos do que quem tenta mostrar arrependimento pelo leite derramado.

Passei uns bons anos com a fama, talvez justificável, de não aceitar desculpas. Só de ouvir o “des…” já me irritava. Preferia seguir o jogo, tocar o barco, levar a vida. Me deixa digerir, me deixa ruminar. Me deixa quieto! Com o tempo, as coisas se ajeitam, para o bem ou para o mal, não quero saber desse ritual.

Ninguém escapa do tempo, o tempo não perdoa ninguém, o tempo ensina. Com ele, aprendi a refinar minha interpretação do perdão. Perdoo para tirar um peso das costas, mais que para redimir quem fez merda. Quando perdoo, dou uma nova chance para mim, mais que para quem me machucou.

Uma coisa não muda: ninguém tem obrigação de perdoar. A medida do imperdoável é pessoal e intransferível.

Já senti o perdão sem nem pedir perdão. Sem colocar a viola no saco e o rabinho entre as pernas antes de verbalizar o ato de contrição. As atitudes e os comportamentos me disseram mais que qualquer discurso. Valorizo isso, também já fiz isso.

Aconteceu recentemente. De tão sutil, demorei a perceber. Precisei de um tempo, sempre o tempo!, para digerir, para entender, para refletir. Custei a entender como ganhei o perdão de alguém tão cheio de respostas para as outras pessoas e lotado de perguntas sobre si mesmo.

Não sou chegado a suspenses baratos, a leitura atenta já antecipa que falo de mim. Me perdoaram porque me perdoei. De chateações carregadas por tempo demais. Falar de fora é fácil, dá para racionalizar quando é tempo demais para carregar pequenas ou grandes chateações.

Quando vejo gente indignada por alguém não aderir ao perdão compulsório, não compartilho da indignação. Se demorei meses ‒ talvez anos ‒ para me perdoar, por que vou achar anormal quem se vê incapaz ou sem a mínima vontade de dizer e agir com um “te perdoo”?

Sem perceber, consegui olhar mais para o presente e me prender menos ao passado. Me cobro menos, mas ainda me cobro demais. Minha autoestima ainda é baixa, mas está mais alta. Minha autoimagem segue meio distorcida, meu autoconceito está longe de ser bem calibrado. Mas depois que me perdoei, me permito mais, me entendo melhor, me ouço com ouvidos abertos. Não é um perdão compulsório, não é um perdão protocolar, não é pouca coisa esse autoperdão.