Eu tentava ser feliz nos intervalos

1 de dezembro de 2025 0 Por Leandro Marçal

Quando essa frase me apareceu na postagem de uma psicóloga no Instagram. parei. Pensei. Me vi em momentos passados, mas também vi pessoas próximas e outras nem tão próximas vivendo a alegria em lampejos, em rápidos voos de galinha, raros, raríssimos, logo indo embora.

Nem precisa me avisar que a vida não é boa o tempo todo, que passar por momentos ruins e resolver coisas chatas fazem parte da jornada, que a tristeza e a raiva e a angústia e a melancolia vêm e vão, às vezes ficam tempo demais, precisam ser bem mastigadas e digeridas. Mas a pesada frase é mais profunda, convenhamos.

Pensei nas mulheres, muito mais nas mulheres. Mesmo me esforçando para fazer minha parte e não sobrecarregá-las ainda mais no dia a dia, existe a dimensão inalcançável para mim. Do olhar torto no ambiente de trabalho, das questões maternas, do medo das tantas violências e de se envolver com gente violenta. Pensei nos casos, e são muitos casos, de convívio com mulheres cujo tempo para serem felizes sempre foi curto, escasso, quase inexistente. Só nos intervalos, se muito.

Pensei nas pessoas fragilizadas. Se as vulnerabilidades viessem apenas de momentos ruins e dos traumas, já seria difícil. Mas não é pouca gente em situação de vulnerabilidade constante por consequência das desigualdades tantas. Que não sabem se terão um almoço decente hoje, que não têm garantia de voltar para casa com vida amanhã, que podem ser agredidas gratuitamente na rua hoje e amanhã e depois por serem quem são. Para quem precisa redobrar a atenção pela preservação da saúde física e mental, só dá para ser feliz em brevíssimos intervalos.

Pensei em mim, por que não? Num tempo sem cores, tudo parecia cinza, escuro, e uma sombra de terror me cobria dia e noite. Nesse tempo, foram poucos os intervalos para ser feliz.

Pensei nos meus, pensei nas minhas. Estariam felizes apenas em intervalos? Posso ajudar-lhes para, ao menos, ampliar esses momentos? Eu tentava ser feliz nos intervalos. Só na terceira ou quarta leitura percebi: nem sempre se consegue ser feliz nos tais intervalos, nem sempre se cogita essa possibilidade.

No meio de tantas bobagens on-line, o milagre de uma postagem de quem mal conheço me atinge assim, como flecha no peito. Que todos os dias a gente e mais gente possa ser feliz para além dos intervalos. Vou fazer minha parte.