Este ano será ruim

1 de janeiro de 2026 0 Por Leandro Marçal

Não tenho poderes sobrenaturais (acho) e faço votos de um novo ano com ótimos e memoráveis momentos, mas desde que o mundo é mundo, janeiro é farto de previsões. Nos primeiros dias do ano, basta dar uma rápida zapeada pelos canais de televisão para tropeçar em gente sensitiva antecipando o futuro.

Se o título deste amontoado de palavras te assustou, não culpe o mensageiro. Tirei o pó do meu diploma de Jornalismo (com J maiúsculo) pendurado na parede e fui a campo entrevistar um especialista em previsões para o engatinhante ano. Fosse futebolista, Pai Marça jogaria nas onze. Na batida metáfora sobre quem se vira como pode, o vidente bate escanteio e sobe para cabecear. Seus atendimentos acontecem numa banca de jornal que não vende jornal, nos intervalos entre as anotações feitas em bloco retangular para organizar o jogo do bicho, prestando serviços a um chefe que prefere se manter anônimo.

A entrevista, realizada numa tarde quente (quentíssima!) e de pouca movimentação no estabelecimento comercial, começou com a demonstração do talento de Pai Marça. “Tá vendo esse calorão? Tempo vai virar, vem um toró no fim da tarde”, previu sem medo. Como era de se esperar, não ficou só nisso. Afinal, eu não gastaria a escassa verba do blog destinada a reportagens de impacto para ouvir apenas e tão somente uma afirmação checada em aplicativos de previsão do tempo e confirmada pela chuva torrencial na volta para a Redação.

“Entramos num ano par, seu corno”, mirou em meus olhos e apontou o dedo indicador. “E todo mundo sabe que ano par é ano arrombado. Alinhamento de planetas, Mercúrio retrógrado ou a puta que o pariu? Porra nenhuma! Em ano par, tem eleição na desgraça desse país. Não tenho como saber se um puto vai morrer esse ano, se uma vaca vai pegar doença terminal. Mas pode escrever no teu jornal: esse país vai ser um inferno do meio pro fim do ano, seu porra”, afirmou com convicção.

Pai Marça não é analista político, mas sabe das coisas.

“Meses de tretas em rede social, montagens ridículas, picaretas criando um pânico do caralho. O prefeito e uns vereadores tirando sorrisinho do cu pra se promover e mudar pra Brasília, aquela maçaroca nojenta de santinhos de quem não é santinho espalhada na rua. Uns beliscando um trampinho fácil e ganhando uma mixaria em campanha pros que querem um trampinho fácil ganhando uma fortuna. Calma que piora: gente maluca com espaço no Congresso vai arrancar a calcinha pela cabeça quando o barba ganhar de novo. E dá-lhe treta nos grupos de família, puta merda! Não adianta me olhar assim, só faço o caralho das previsões, não tenho como mudar essa porra”, prosseguiu.

Não parou por aí.

“E antes tem Copa do Mundo na terra do laranjão filho da puta, hein? Aí já sabe: as viúvas do Neymar pedindo esse encostado no time do italiano, gente metida a intelectual chorando as pitangas e teorizando sobre futebol e pão e circo, chefia atrapalhando a vida dos coitados querendo ver um joguinho, a gente passando raiva com a porra dessa seleção. Pra piorar, vai ter o Galvão no SBT. No SBT!”, aqui, Pai Marça se exaltou. “Tua TV é por assinatura ou tu tem aparelhinho? O delay é de foder, meu vizinho grita gol quando o time tá no meio de campo da minha tela, caralho!!!”, precisei acalmar o vidente.

Antes de encerrar a entrevista, fiz um joguinho, porque ninguém é de ferro: milhar na cabeça, convicto de voltar no dia seguinte para resgatar o prêmio. Pai Marça me desejou sorte. Agradeci o importante depoimento, não sem antes ouvir a saideira.

“Pode me cobrar: o ano vai ser uma merda, mas a gente é teimoso pra caralho, tem que rir nos maus e nos bons momentos. A gente é foda, porra! Só não escreve esse monte de palavrão, minha mulher reclama”, concluiu.