Escritores falando gírias

19 de outubro de 2026 0 Por Leandro Marçal

Com essa mania esquisita de publicar uns textos por aí, já percebi algumas pessoas tentando usar palavras supostamente bonitas nos diálogos comigo. Seja num flerte improdutivo ou numa reunião profissional de grande importância, frases empoladas me constrangem ao se misturarem com o medo de tropeçar. Como se eu fosse fiscal, aplicando multas a quem agride o idioma escrito. 

Já tive a mania feia de corrigir erros de português assim, de bate-pronto, posando de professor bem-intencionado. Mas eu cresci. Se a mensagem do emissor é compreendida pelo receptor, vamos em frente. Claro, isso na informalidade e nos bate-papos despretensiosos. No campo profissional, é diferente. 

Ano passado, fui chutado de uma agência de comunicação. Quem corrigia meus textos-bunda para clientes mimados e pedia mais inspiração também escrevia “insêndio” em documentos internos. Com duas pós-graduações no lombo, quem anunciou meu desligamento, embora eu não seja uma lâmpada fluorescente, causou estresse ao digitar “menas” num pedido à equipe. Aí é foda.  

Basta me identificar como jornalista e aparece alguém perguntando se sei todos os detalhes do noticiário. Se me digo escritor, não sou perdoado pelo desconhecimento da grafia e significado dessa ou daquela palavra. Preciso proteger, com todas as forças, o bom uso do idioma, pensam. Se lessem cada bomba atômica publicada por aí, teriam um pouco mais de precaução.  

*****

O cargo de escritor não me torna, necessariamente, um cara sisudo. Não uso roupa social, olhando de cima para baixo, tratando como inferiores os seres humanos vomitando gírias e expressões de baixo nível. Não quero altares, me coloco no mesmo patamar de quem me lê. Caminho numa literatura pé no chão, quase palpável, sem universos mirabolantes. Posso ser chato, esquisito e arrogante, mas por outros motivos.  

Escritores falam gírias. E vão à praia. E riem. E bebem. E fumam. E se drogam. E transam. E mijam. E peidam (uns mais, outros menos). E cagam. E veem novela. E gritam  gol. E batem ponto na firma. E passam desodorante. E pagam contas. E fazem compras. 

*****

Passei por uma grande mudança profissional em 2016. No ano seguinte, comecei num curso de formação de escritores, meu primeiro passo nessa vida literária. Lá, conheci diferentes caminhos, escolhendo alguns e me despedindo de outros. Lá, também conheci amigos com quem mantenho contato até hoje. No segundo ano do curso, tínhamos a tarefa de desenvolver um projeto de livro. Uma vez por mês, nos encontrávamos e comentávamos os rascunhos uns dos outros. Pais e mães das crianças não poderiam rebater os pitacos, apenas ouvir. 

Meu projeto ganhou o nome Naquela Esquina. No rascunho de romance, Samanta é uma policial militar que suspeita de umas maracutaias da chefia do batalhão; Jeferson é um eletricista recém-separado, que volta a dividir casa com a mãe, Clarice. Quando a idosa se sente mal, o filho corre para encaminhá-la até um hospital, esquece a CNH em casa, é parado numa blitz pela PM, que num dia meio ruim, causa a demora fatal para a senhora infartando. 

Premissa de livro árido. Cheguei à 1ª versão completa após 19 rascunhos, com o curso já finalizado. Publiquei meus dois primeiros livros antes de terminar o tal projeto do curso. Engavetei, resgatei, troquei o arquivo de pasta, desisti, desisti de desistir. Idas, vindas, intervalos, leituras, pesquisas, reorganização, descansos. Mudei pontos de vista na narração, troquei a linguagem, incrementei a marcação de diálogos, trouxe a história para uma ambientação na Grande São Vicente. Em conversas e leituras compartilhadas com amigos escritores, coloquei um ponto final na 7ª versão completa no começo desse ano e deixei o projeto à espera. 

Semanas atrás, no evento de lançamento de dois livros em Praia Grande, encontrei o amigo de um amigo. Muito culto, é um raro ex-policial militar formado em Filosofia. Combinamos a gentileza de uma leitura prévia, sem medo de comentários sinceros, para saber quais pequenos ajustes fazer no projeto de oito anos. Menos de sete dias depois, veio a resposta, tão completa quanto bem embasada: na história, os procedimentos de investigação interna são inverossímeis, os protocolos de abordagens não fazem sentido da forma como escrevi. Para arrumá-los, a popular reescrita. Só que os tais ajustes matariam a trama: se a protagonista seguir à risca os protocolos e procedimentos, não causará o conflito da premissa; se a protagonista não seguir à risca os protocolos e procedimentos, terá uma personalidade não condizente com a construção naquelas dezenas de páginas. 

Puta que pariu! Coloquei o Naquela Esquina na pasta “Arquivados”. Não vou jogar fora. Mas vai ficar lá, parado, descansando, quietinho. Sem uma luz dos céus, não devo revisitá-lo nunca mais. Virou exercício de escrita. Minha literatura mudou, livros e textos mais recentes não conversam tanto com o antigo projeto. 

Deixar ir pode até doer. Mas desistir também tem seu valor. 

*****

Antes de ser escritor, sou gente, com minhas fragilidades, mesmo tendo na escrita meu único ambiente seguro, onde sei o que quero, como quero, para onde vou e por qual caminho. 

Escrevo todos os dias, para mim e para os outros. Não falo tantas gírias, mas abuso de expressões populares e peculiares, rasteiras, dizem que chulas e comuns a estelionatários e agiotas. Não nego, não confirmo, nem tenho dinheiro para emprestar. 

Fico sem graça se me acusam de artista, mesmo a caminho de lançar meu 6º livro. Sei lá, só escrevo umas besteiras por aí para uma meia dúzia de leitoras, sem altares, me colocando no mesmo patamar de quem dedica seu tempo à minha ficção, tão pé no chão, tão quase palpável, tão sem universos mirabolantes.