Elitismo santista

14 de setembro de 2025 0 Por Leandro Marçal

“Não concordo com você. A cidade de Santos não é elitista. Não, senhor! É um pouco preconceituosa, mas não é elitista!”, protestou a Senhora Palestrinha, interrompendo minha aula de escrita criativa, sob olhares de desdém de colegas ouvintes.

Parecia vingança pelo dia anterior, quando levantei a mão pedindo a vez e fui pouco sutil na reunião do Sindicato de Escritores Independentes. “Já ouviram falar que o Brasil deveria ficar de costas para o restante da América do Sul no mapa, por tanto ignorarmos a cultura dos nossos vizinhos? Com Santos, é parecido: o pessoal daqui se acha acima do restante da Baixada e isso também se reflete na cena literária”, falei sem gaguejar, sob o olhar fulminante da onipresente Senhora Palestrinha, dias depois de uma feira de livros acontecer dentro de um hotel luxuoso e de pouco acesso ao cidadão comum.

De uns anos para cá, a cidade de Santos encareceu, se gentrificou, se verticalizou. Não por acidente, mas por projeto. Cresceu a média de idade, diminuíram os serviços públicos. E se a política brasileira pariu um monte de baba-ovos de laranjões americanos nos últimos tempos, Santos arrecada impostos de muitas viúvas de milicianos.

Mas preciso reconhecer duas coisas. Primeiro, a qualidade de vida em Santos é realmente acima da média. Digo num geral, é claro. Nas regiões mais bacanas, perto da praia e bem localizadas, vale a pena procurar moradia e pagar muito caro no aluguel ou no financiamento. O segundo fato a ser ressaltado é que o elitismo santista não vem de hoje, nem de ontem, tampouco de anteontem.

Nasci, cresci e moro até hoje na vizinha pobre, a São Vicente que dá nome à ilha onde Santos se abriga. Desde pequeno, citar minha terra natal é a certeza de receber olhares atravessados ou de pena, como se vicentinos passássemos todos por privações severas. Quando convido santistas para aniversários, churrascos e uma cervejinha no bar, sei que pelo menos 90% dessa gente fina, elegante e sincera fabrica desculpas para não sofrer com as ruas esburacadas daqui.

E se Santos está de costas para o restante da região, o mesmo acontece internamente: o elitismo santista mal reconhece a Zona Noroeste, onde evita pisar; ignora a presença da maior favela de palafitas do Brasil na mesma cidade; só vê a miséria e a pobreza e a violência e a desigualdade em Santos quando incomodam paisagens instagramáveis.

Essa prepotência se reflete até no nome da suposta região metropolitana. Se o Rio de Janeiro tem sua Baixada Fluminense, a Baixada do estado de São Paulo não é Paulista, mas Santista. Talvez por isso o elitismo local enxergue as vizinhas como irmãs bastardas, sem direito à herança, redutos de gente indesejada.

E quando o elitismo circula nos papos sobre como é morar no litoral paulista, o “mas nem todo santista” aparece na boca de gente como a Senhora Palestrinha, emulando o irmão gêmeo do “mas nem todo homem” parido em conversas sobre machismo. Acontece (e muito!).