De volta ao samba

8 de agosto de 2025 0 Por Leandro Marçal

Essa crônica seria publicada em meados de setembro. Descanse em paz, Arlindo Cruz!

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Quando postei nos stories do Instagram uma foto mal enquadrada, segurando o recém-chegado exemplar de O sambista perfeito, a Colega Multiartista mandou mensagens curiosas. Primeiro: a pergunta encabulada sobre novos projetos, talvez mantidos em segredo para justificar a leitura da biografia do Arlindo Cruz. Respondi: que nada, só quero conhecer mais a fundo a história desse gênio, sou muito fã. “Nossa, você ouve esse tipo de música? Nunca imaginei…”, veio o princípio de lamento.

Essa surpresa alheia não me surpreende mais. Existem certos círculos literários que não sentem o cheiro do povo. Neles, já vi caras de espanto (e desgosto?) ao dizer que não tenho casa própria, que me beneficiei de bolsas de estudos, que vim do lado de lá. Reações de quem me vê como quase intruso num meio que, volta e meia, ainda insiste em flertar com o elitismo.

Imaginei a Colega Multiartista decepcionada comigo, lendo as mensagens com essa mesma cara de espanto (e desgosto?). Talvez pela minha pele clara, talvez por me ver dividindo espaços com quem acha elegante construir altares separando escritores de leitores, descobrir que ouço samba deve ter sido um baque para a querida figura.

Veja bem: ouço samba. Não posso dizer que sou do samba. Não tenho essa pretensão. Respeito quem é do metiê e sei bem qual é meu lugar. Desde pequeno, sou cintura dura, de pouca coordenação para danças, passos e gingados. Não me peça para tirar um som do pandeiro ou batucar com ritmo. Mantenho um distanciamento reverente. O samba pode contar comigo, mas só posso ajudá-lo curtindo o som ou escrevendo textos em singela homenagem.

Lancei meu 5º livro no quintal de casa, com a trilha da playlist 90% dedicada a sambas marcantes para minha formação como ser humano imperfeito. Nos últimos anos, me reconectei comigo. Nesta reconexão, o samba ajudou a ampliar meu entendimento sobre ancestralidade, fé, raízes e identidade. A música tem esse poder porque a arte responde quando ainda nem perguntamos.

Não consigo passar uma semana sem ouvir samba. Pode ser um álbum no Spotify, uma gravação audiovisual no YouTube. Quando a rotina me atropela, escuto apenas uma música marcante para me dar gás no expediente, apelo àquela pedrada para me inspirar nos textos com prazo apertado. Me divirto quando perguntam a diferença entre samba e pagode, tento explicar sem pedantismo quando a dúvida é genuína. Me divirto ainda mais quando a cara de espanto (e desgosto?) se transforma num game show para testar se gosto mesmo, de verdade, se não sou “modinha”.

Um dia, quem sabe?, gente como a Colega Multiartista entenderá a profundidade e a sofisticação dos grandes sambas de letras decoradas por nós, reles mortais. Também sonho em ver gente frequentadora de círculos culturais elitistas sentindo uma roda de samba sem tentar explicá-la. Até lá, termino de ler e até empresto a biografia do Arlindo Cruz, ouvindo músicas marcantes para minha formação como ser humano imperfeito.