A verticalização do pastel
Num domingo nublado, desço do ônibus na rodoviária improvisada a duas quadras de casa. Vim de São Paulo com uma ideia fixa na cabeça: passar na feira. Em dia de missa, um dos lados da avenida é fechado para as barracas com feirantes aos gritos vendendo frutas, verduras, temperos, essas coisas. Na minha lista de compras: banana e maçã para a salada de frutas pós-natação; caqui para mãe e sobrinha; pastel e caldo de cana porque também sou filho de Deus.
Pouco depois do meio-dia, imagino que os trabalhadores mal têm voz e só pensam no fim do expediente puxado. Carregando as frutas em sacolas transparentes, paro na barraca do pastel, peço um copo de caldo de cana sem limão e um pastel de carne com queijo. (Porque só acredito no pastel de carne, no pastel de queijo e no pastel de carne com queijo. O de frango é uma torta. O de pizza só tem um sabor – ninguém pede um pastel de pizza de peperoni. Os outros pastéis são invenções, maluquices, extravagâncias).
Para minha grata surpresa, me entregam um pastel na horizontal. Do jeito certo, com o qual fui acostumado a comer na minha infância. Pastel deitado é atestado de caráter. Quando o famigerado “pastelão” ganhou fama uns anos atrás, veio a moda do pastel na vertical. Um assombro, um acinte, uma ofensa. Teve quem achasse uma boa opção contra o pastel de vento, com uma colherzinha de recheio a enganar otários por aí. Bobagem, balela. Dá para colocar só uma miséria de carne moída, queijo ou carne moída com queijo naquela massa em pé.
Enquanto como, penso na verticalização das cidades. Cada vez mais prédios, cada vez menos casas. Chamam de condomínios aqueles amontoados ocupando quarteirões inteiros, com direito a academias e padarias para os moradores esquecerem o mundo lá fora. Não bastasse o mau gosto estético de uma gente fina, elegante e sincera, esses prediões deixam a cidade mais hostil e insegura. Uns veem nisso o progresso, outros frequentam oftalmologistas periodicamente.
Seria o pastel também vítima da verticalização urbana? Existe especulação e/ou interesse mercadológico interferindo no posicionamento do pastelzinho nosso de cada feira? A verticalização do pastel simbolizaria uma forma de controle social para domesticar esse raro momento de paz?
Depois da última mordida, viro o copo de caldo de cana, amasso o papelzinho, agradeço, desejo boa tarde, pego minhas sacolas e vou para casa. Talvez eu esteja cansado demais, talvez eu precise dormir, certamente necessito tirar certas ideias estranhas da cabeça.
