A crise da piaçava

8 de setembro de 2025 0 Por Leandro Marçal

Segurei o cabo da vassoura, fiz os primeiros movimentos para juntar a sujeira da cozinha e senti raiva, muita raiva. Nada contra varrer o chão, ato cotidiano e necessário, encarado com naturalidade. Alguém dirá que varrer o chão é chato, mas a vida também é feita de coisas chatas, tão chatas quanto necessárias.

Senti raiva quando vi um amontoado de pelos grudados nas cerdas azuis. Quem tem gatos ou cachorros em casa, e eu tenho dois gatos e uma cachorra em casa, sabe como os pelos se multiplicam pelos cantos, desafiando vassouras, varredores amadores e profissionais robôs aspiradores de pó.

Minha raiva não era direcionada aos dois gatos e à cachorra. Minha indignação não era contra os pelos pelos cantos. Meu quase ódio era filhote das cerdas azuis e de plástico. Como pelos de cães e gatos nos cantos da casa, vassouras de péssima qualidade se multiplicam nas grandes redes de supermercado das nossas cidades.

Eu era uma criança e não entendia nada quando li uma reportagem sobre a crise no comércio de piaçava acentuada no período mais crítico da pandemia de covid-19. Na época, o isolamento social se juntava à concorrência de produtos sintéticos e impactava a venda da matéria-prima da melhor cerda possível para as vassouras, modificando também a vida de comunidades que viviam da produção e venda da simpática fibra.

Aparentemente, o novo normal é um tempo sinistro de vassouras com cerdas sintéticas e pasteurizadas. Azuis, verdes, vermelhas. De todas as cores, isso não é um problema. O verdadeiro problema é ter em mãos uma vassoura quase disfuncional, me obrigando a tirar pelos e sujeiras grudadas nas cerdas depois de limpar o chão. Varro o chão, depois “varro” a ferramenta de varrer o chão.

Quando peguei a pá de lixo, me veio o receio de cair naquela mistura de nostalgia enferrujada e saudosismo fora de tom, típicos de quem não aceita o passar do tempo e rejeita qualquer novidade. “Não se faz mais vassouras como antigamente”, eu lamentaria se tivesse caído nessa sedutora armadilha.

Não é esse o caso. Juro, e juro sem dedos cruzados atrás das costas. Quando vou ao bar, corro o risco de beber uma cerveja que, tecnicamente e seguindo padrões criados por especialistas, nem pode ser considerada uma cerveja de verdade. Se decido comer um docinho e apelo ao tão amado chocolate, posso descobrir que comi um aglomerado de açúcar e substâncias de nomes polissílabos com sabor chocolate, e não um chocolate-chocolate. Tem também a queda expressiva da qualidade nas bolachinhas, as tão simpáticas bolachinhas recheadas e redondas, embaladas em plásticos coloridos, com sabor cada vez mais açucarado e com menos gosto de doce de leite ou morango, porque mudaram sua composição há uns sei lá quantos anos.

Se nem nossas papilas gustativas são poupadas da precarização do sabor, a vassoura não passaria ilesa. Uma vassoura que não é vassoura. As cerdas que não são bem cerdas. A vassoura que precisa ser varrida. As cerdas que precisam de limpeza prévia e póstuma para que possam limpar.

Queria ter a capacidade de teorizar, desenvolvendo uma tese com referências a autores conceituados para ligar a crise da piaçava a fatores do capitalismo, do neoliberalismo, da hiperindividualização do mundo e do esgarçamento do tecido social. Queria ser capaz de escrever um texto cheio de notinhas de rodapé, sugerindo outras teses capazes de destrinchar as raízes do declínio da vassoura. Não sou tão evoluído.

Passada a raiva, virei a pá e despejei a sujeira na sacola presa ao balde de lixo. Pisei nas cerdas para arrancar com a mão o amontoado de pelos ali grudados. Peguei minhas chaves e andei até a lojinha de materiais de limpeza ao lado do supermercado da grande rede. Se ainda existe justiça no mundo, lá vou encontrar uma boa e velha vassoura de piaçava.