Puxando assunto

16 de março de 2026 0 Por Leandro Marçal

Durante estranhos anos, fiz um esforço para não me afastar de pessoas. Puxava assunto, perguntava da vida, da saúde, da família, dos relacionamentos, do trabalho. Mantinha a boa postura, tentava ser bom amigo, alguém com quem contar nos maus e nos bons momentos.

Percebi que me preocupava em não me afastar de algumas pessoas que lembravam de mim apenas nos maus momentos. Pedido de ajuda, de uma mãozinha, de quebrar um galho, do favor rápido. Tudo bem, acontece, faz parte. Nunca fiz nada pensando em recompensas, repetia feito mantra.

Ouvi o estalo imaginário, vi a lâmpada invisível acender sobre minha cabeça. Perdi tempo fazendo esforço para não me afastar de pessoas que ignoravam minha existência quando era eu quem passava por maus momentos. Enquanto vivi tempos mais que difíceis, não perguntavam da minha vida e saúde e família e relacionamentos e trabalho.

Veio certa revolta, não posso negar, não me envergonho em admitir. Onde estavam aquelas pessoas? Por que se afastavam de quem tanto tentou não se afastar? Se tivesse esse poder, teria mandado metade à puta que pariu e metade à casa do caralho, com passagem apenas de ida.

Num lapso de lucidez, rememorei as vezes que puxei conversa. Eu perguntava, eu fazia questão de preservar vínculos, eu me esforçava em ser bom amigo, eu queria ser um cara leal. Era óbvio: aquelas pessoas pouco ligavam para mim e talvez eu fosse inconveniente, falador, chato, intrometido, invasor de espaços. Talvez boas amizades fossem uma via de mão única, sem retorno para mim. Certamente, a mistura de ingenuidade com deficit de malícia me enganou.

Dali para frente, aprendi a ficar na minha, quieto no meu canto. Sem forçar simpatia, sem me aproximar de quase ninguém. Calado a maior parte do tempo. Falando apenas o necessário. Meu “tudo bem” deixou de ser frequente pergunta e virou protocolar resposta. Me convenci de que ninguém fazia questão de mim. Nem eu me importava comigo.

Cresci ouvindo meu pai repetindo ditados populares. Gosto especialmente do “quem fala demais dá bom dia a cavalo”. Em não raras noites de insônia, me perguntei se não mantive os ouvidos tampados diante de equinos em forma de gente.

Depois de uns bons anos, pessoas de quem não ligo por ter me afastado mandaram mensagens perguntando da vida, da saúde, da família, dos relacionamentos, do trabalho. Quase sempre depois de expor minhas conquistas em redes sociais. Respondo o básico, sem puxar assunto. Não é por nada, só não quero render assunto. “Quanto tempo”, “precisamos marcar” e “vê se não some” são as frases protocolares.

Nesses tempos médios, me espanto quando alguém puxa assunto esbanjando interesse genuíno. Também me impressiono com quem não desistiu de mim porque aposta no vínculo comigo. Estariam tão ingênuos quanto fui durante aqueles estranhos anos? Não sei responder, nem procuro respostas.