Pensar menos, sentir mais

31 de março de 2025 0 Por Leandro Marçal

Comecei o ano alimentando uma suposta meta. Meio intangível, meio imensurável. Não que eu seja ligado a metas, tão faladas entre a meia-noite de dezembro e o amanhecer de janeiro. Porque em poucas semanas, até a gente mais otimista já esqueceu disso. Mas ainda repito o quase mantra: pensar menos, sentir mais.

Existiu uma versão minha que encarava ser chamado de racional como elogio. Capaz de se sentir superior por encarar problemas da vida, dos práticos aos subjetivos, sobre o altar da racionalidade. Um tipo que hipervalorizava o pensamento cartesiano. Um cara orgulhoso e com pontadas de arrogância, hoje quase irreconhecível.

Longe de ser impulsivo, reativo, emocionado ao extremo, sem avaliar consequências. Mas me fez bem aprender a também valorizar os sentimentos e as emoções. Pode parecer besta, porque sou um sujeito besta. Essa coisa tão típica, tão masculina de represar emoções, de não expor sentimentos, de ter respostas (mesmo que ruins) para tudo, de esquecer a importância das subjetividades, essa coisa não faz bem, mas tem quem superestime essa coisa.

Quando vejo gente julgando atitudes ditas irracionais, tomadas à base da paixão e driblando o bom senso, tento ponderar. Em alguns casos, é um risco desnecessário, é um passo temerário, é um caminho não recomendado. Em outros, a paixão merece respeito. Porque é um ato de coragem. Ser livre de sentimentos é puro autoengano. Ignorar as emoções é pura prepotência.

Em meios intelectualizados, trombo com quem cobra a racionalidade a todo custo, com quem vê na hiper-racionalidade a solução para os problemas do mundo, como se nela não morassem tantas das nossas mazelas.

Devo muito dessa visão menos racionalizada à psicoterapia. Lá, entendi que sentir faz parte. Que as emoções negativas precisam ser absorvidas, ruminadas, digeridas. Que não ter jeito para expressar sentimentos, bons e ruins, é uma característica minha, que não precisa ficar imutável. Curioso: aprendi a lidar melhor com meus sentimentos e emoções depois de anos como bom conselheiro, recomendando a outras pessoas atravessarem sentimentos e emoções sem menosprezá-los. Me fez bem ter a coragem de olhar para dentro de mim. Me faz bem todos os dias, quando lembro de não adiar esse exercício.

Convivo com familiares incapazes de tomar uma mísera decisão baseada no planejamento, na calma, no pensar um pouco, no equilíbrio da análise de antecedentes e consequências. Também lido com gente insegura, julgadora de lágrimas e sorrisos, vendo vulgaridade em qualquer reação acima do tom. Pensar menos, sentir mais.

Quero exercer minha vocação de um bom ponderado, sem precisar anotar essa suposta meta numa listinha esquecível.