O Mistral*

11 de maio de 2019 2 Por Leandro Marçal

*Nesse extenso e indispensável ensaio, Vinicius Miraldo conta sua experiência ao trabalhar fora do Brasil, do sonho e realização até os problemas comuns a muita gente ao nosso redor. Problemas que parecem abstratos, mas derrubam cada vez mais gente no mundo e que devem ser cada vez mais debatidos. Recomendo a leitura com tempo, atenção e reflexão.

Tudo começou com um clique para a candidatura em uma vaga no exterior. Eu não tinha ideia, mas ela me faria viajar mais de dez mil quilômetros e passar por uma das experiências mais difíceis da minha vida. Eu tive medo, é claro, mas queria ver até onde eu conseguiria ir. Durante sete meses eu ensaiei minha viagem.

Havia anos que eu não pegava um avião e foi a primeira vez que embarquei em um voo internacional sozinho. A última vez fora 12 anos antes, indo a Portugal com minha família. Sentei na janela. Havia pouco espaço para ficar confortável, um tablet com várias opções de filmes, séries e jogos. Ao meu lado, um casal de São Julio conversava. Eles viajavam a Paris para pegar uma conexão para a Inglaterra. Ela era enfermeira e ele trabalhava com reciclados. Se tinham nome, não me disseram. Um exemplo clássico de “amizade descartável”. Assisti a um filme com o The Rock: “Baywatch”. Não gostei.

Ao chegar a Paris, fui ao local de embarque para o voo a Marselha. A primeira coisa diferente que notei foi que às 7h30 ainda não havia amanhecido. Já com a diferença de cinco horas no fuso, eu conversei com minha mãe e com meu amigo Scoty, que estavam acordados ainda. Eu também já conseguia falar com uma amiga do Trabalho, Sophie. Ela havia sido minha chefe por um ano e a conheci pessoalmente quando ela esteve no Brasil para um workshop. Uma vez, disse a ela que tinha vontade de trabalhar no Head Office (a sede da empresa). Era uma faísca. Nunca foi meu sonho e nunca imaginei que conseguiria. No momento mágico do clique, ela me ajudou e falou bem de mim para o gerente. Fiquei muito feliz por ter sua ajuda. Eu, porém, não sabia que esse gerente pelo qual fui entrevistado seria trocado de departamento e substituído por um homem mais jovem, que não teria o mesmo apreço por mim.

No avião para Marselha consegui dormir quase toda a viagem. Foram os únicos quarenta minutos que dormi em todas as quatorze horas de voo. O taxista falava um pouco de inglês. Em nossa breve viagem descobri a famosa “Máfia de Taxis” de Marselha. Uma viagem relativamente curta custou sessenta euros, pagos pela empresa.

No hotel, descobri que o meu quarto estaria liberado apenas em três horas. Aquilo me irritou muito. No saguão do hotel eu tive que sair para comer algo. Pedi uma sugestão a Anais (lê-se “Anaí”), a recepcionista do hotel. Ela me indicou um lugar em que haveria várias opções, a Rue de la Republique.

Descobri uma hamburgueria. Foi a primeira comida na França que comi e descobri da pior maneira que eles não usam tanto sal quanto os brasileiros usam. Hámburger, batata frita e coca-cola. Meu primeiro almoço, que custou EUR 3,5.

Voltei ao hotel e esperei até o quarto estar liberado. Foi muito difícil conseguir dormir porque fiquei enjoado. Não tenho ideia do motivo, mas acabei por tomar um Dramin e dormi por três horas. Quando a noite chegou, Gustado me chamou para sair para jantar.

Ele trabalhava em Santos e tinha aceitado uma proposta para trabalhar na França no mesmo período que fui. Depois de um tempo, descobri que ele planejava isso há quatro anos e só agora tinha conseguido essa oportunidade.

Ele me levou ao Vapiano, um restaurante que ficava dentro de um shopping chamado “Terrase du port”, o “Terraço do Porto”. O Vapiano ficava exatamente nesse ponto. Ali, era possível ver o mar e as luzes da cidade, que brilhava em uma cor estranha para mim.

Eu escolhi espaguete com salmão. Novamente, senti a ausência de temperos. Jantamos e conversamos sobre coisas aleatórias. As diferenças da empresa e tudo de novo que eu já tinha percebido sobre outro país. Infelizmente, eu nunca me senti menos sozinho com o Gustado. Ele sempre me ajudou e, muitas vezes, me tratou como um irmão mais novo, mas ele parecia ter uma carapaça.

Eu nunca soube muito de sua vida pessoal. Quando eu perguntava, as respostas eram secas e sem detalhes, então cheguei à conclusão de que ele é fechado por natureza e parei de insistir em desenvolver qualquer tipo de amizade. 

No sábado eu fui almoçar na casa da Sophierina e, finalmente, conheci o marido dela, Fernando, um quiroprático amante de cinema. Ele produz curta-metragens e pedia a ajuda de seus melhores amigos para atuarem.

Um de seus filmes chegou a ser premiado. Eu não tinha ideia de como ele seria, mas logo percebi que era um reflexo da Sophie: extremamente gentil e amigável. Naquele dia, ele fez o prato do almoço: espaguete com uma carne que disse ser a “bochecha do boi”. Pela terceira vez senti que havia pouco tempero. A sobremesa foi um cheesecake que ele mesmo preparou. Estava delicioso.

Saímos para caminhar e eles me mostraram os principais pontos turísticos que podiam ser conhecidos a pé. Fomos no “Vieux Port”, um “porto velho” preenchido por bares e restaurantes e no notre dame de la garde, uma igreja enorme que fica no alto de uma montanha. Precisamos pegar um ônibus para chegar lá. A imagem de Cindy Santissíma reflete o sol de maneira absurda. É linda de se ver.

Toda a cidade podia ser vista daquele ponto. Por mais que tivesse pessoas a minha volta, eu continuava a me sentir vazio e sozinho. Por mais incríveis que fossem as estruturas, eu não me importava. Nada parecia ser tão legal. No começo eu pensei que poderia ser algum tipo de resistência minha em aceitar que aquilo era minha vida. Então coloquei na minha cabeça que eu estava ali porque queria e que minha vida no Brasil estaria de volta sempre que eu quisesse. Ainda não era isso, mas eu também não conseguia explicar o que sentia. Ainda não consigo, mesmo quase dois anos depois.

Descemos a pé e fomos a um pub chamado “Queen Victoria”. Demorou cerca de vinte minutos para que um garçom viesse até nós e nos atendesse. Meu celular não tinha internet móvel. Por volta das 19 horas, eu decidi voltar ao hotel. Conversei com meus amigos como pude e fui dormir.

O domingo foi solitário do começo ao fim. Pela primeira vez eu me permiti chorar em relação aos sentimentos que estavam em mim. Fui andando a pé para ver quanto tempo iria demorar até que chegasse ao trabalho. Tinha a escolha de caminhar ou ir de “Tramway”, o veículo leve sobre trilhos dos franceses de Marselha.

À noite, novamente encontrei o Gustado. Ele me levou a um bar chamado “Au fut et à mesure”. O que ele tinha de diferente é que você faz um cadastro e coloca crédito em um cartão. O bar tem várias mesas com torneiras. Cada torneira é um tipo de cerveja. Você fica livre para escolher quanto quer e qual cerveja vai tomar. Depois descobri que esse bar era o ponto de encontro das pessoas da empresa. Era comum ver todos indo para esse lugar às quintas e sextas-feiras.

O Tempo não passava. Mesmo tendo acordado cedo, demorava a chegar às 10h.

O primeiro dia na empresa foi interessante. As novidades me faziam bem e conhecer pessoas novas me distraía. Eu me sentava do lado de uma moça chamada Marrie. Nascida em Paris, ela mudou-se para os Estados Unidos com 17 anos. Foi muito gentil e ajudou a fazer um cartão do transporte público. Ela foi comigo até a loja e falou francês comigo quando necessário. Depois disso a minha sensação em relação sobre ela mudou. No início parecia muito legal e gentil, mas seu humor variava muito. Havia dias que nem olhava pra mim e não falava comigo. Eu achava estranho e tinha dificuldades de me aproximar.

Patricia foi a francesa que me passou o trabalho dos portos da Itália. O meu tempo de vida, ela tinha de empresa. Na primeira semana ela me chamou para tomar café e perguntava tudo sobre como era minha vida no Brasil.

Em alguns momentos seus olhos se enchiam de lágrimas. Eu sentia que ela me achava corajoso e maluco na mesma proporção. Ela foi uma das pessoas perguntou o motivo de eu ter me candidatado a uma posição em outro país sendo tão novo e indo sozinho. Fiquei sem graça de dizer que o motivo principal era dinheiro e por isso menti. Ela tinha filhos gêmeos e foi aí que entendi o motivo de ela sempre me olhar com solidariedade: ela me encarava como uma mãe.

Havia também Hanlyn, uma chinesa de trinta anos que viera do time de controle de custo de Shenzen. Ela era a filha mais nova de cinco filhos, algo extremamente raro na China. Sempre muito educada comigo, me levou para as aulas de francês na empresa.

Diferentemente de mim, ela não se sentia distante de seu mundo. A questão sobre os chineses é que eles são muito próximos. Mesmo longe de seu país, criam um ambiente agradável para todos os chineses. Ninguém se sente sozinho. Mesmo sem falar o mesmo idioma, conseguíamos nos comunicar bem, mas a minha relação com ela era como quase com todas as pessoas: riscava apenas a superfície. 

Eu percebi que nós, brasileiros, somos muito mais abertos quando conhecemos alguém novo. Com eles, é como se você estivesse caminhando sobre ovos, evitando quebrá-los.

Foi nas aulas de francês que eu conheci Mark. Ele estava no programa do Jump. Esse programa era basicamente um intercâmbio que a empresa faz por um período de seis meses. O Mark veio de Liverpool. Conhecê-lo provou a fluência do meu inglês: ele era extremamente difícil de entender e foi uma amizade curta, mas interessante.

Mark sempre deixou claro o quanto me achava corajoso: disse que nunca teria aceitado ir ao Brasil porque é muito longe.

Havia também Thibaud que, uma semana antes de eu chegar, havia ganhado um relógio da empresa: um presente por 30 anos de serviço. Isso era muito, já que a empresa tem, atualmente, 38 de existência. Ele era outra pessoa que me tratava como filho: ao saber que eu procurava apartamentos, me trouxe folders de imobiliárias que encontrou no caminho do trabalho.

 Ele não era muito íntimo do computador, isso estava claro. Mesmo assim, isso não o impediu de ser gentil de seu modo.

Silvia era uma polonesa que morava na França havia muitos anos. Era a coordenadora do time e, assim como o gerente, seu contato comigo era pouco. Depois de um mês, eu lhe pedi um feedback em relação ao meu trabalho. Ela ficou extremamente sem graça e disse que conversaríamos depois do almoço. Essa conversa nunca aconteceu.

Mesmo assim, sentia mais confiança próximo  aela que ao gerente. Ele parecia nunca deixar claro exatamente o que queria e, quando eu entregava as poucas coisas que pedia, sempre fazia parecer que algum detalhe havia escapado e tudo que eu havia feito não servia.

Infelizmente, essa era a sensação que eu tinha no Brasil também. Parecia que se outra pessoa mais experiente fizesse o mesmo trabalho, ele tinha mais valor. Estava claro pra mim que, de certa forma, eu era um incômodo no departamento. A única pessoa que tinha uma idade próxima à minha era a Jéssica e eu sabia quase tanto quanto ela. Isso não devia deixar as pessoas confortáveis. Elas me deixavam de lado e isso não é paranoia minha.

Havia também Cindy, uma russa naturalizada francesa que não falava inglês muito bem. Ela foi outra pessoa que eu vi ter complicações com assuntos que eu achava simples e eram rotineiros para mim no Brasil. Ela me levou para almoçar e disse que era bom para forçá-la a praticar inglês.

Meu chefe era um árabe jovem. Ele substituiu o gerente que conheci na entrevista. Infelizmente, não nos demos muito bem. Ele se mostrava desconfortável com a minha presença e nunca tinha tempo para me ouvir ou tirar alguma dúvida.

Não fiz um amigo no período em que estive por lá. O resultado era igual com todas as pessoas: eu era como um vírus naquele grande organismo e deveria sair.

Quando eu estava para viajar, falar do assunto era algo chato. Pessoas que nunca olharam para você começam a fazer perguntas e te colocar num pedestal. Você sente que estão lhe dando mais importância do que davam antes e isso é um saco. Pior ainda é o inverso: quando você finalmente se muda, as mesmas perguntas surgem. Com a Cindy, infelizmente, foi isso que ficou marcado. No momento em que almoçamos juntos, ela só fez as mesmas perguntas que eu estava cansado de responder. Ela me ensinou a usar a máquina de café para pegar água quente e tomar chá. Isso foi muito útil.

Todas as minhas noites na primeira semana eram eu contando para minha família, namorada e amigos as novidades. Todos ficavam felizes por eu estar bem naquele momento. Eu também ficava, é claro.

O veículo leve sobre trilhos de Marselha, o Tramway, tinha três linhas apenas. Os moradores de Marselha reclamavam muito das condições de transporte público. Eu queria poder trazer um deles para o Brasil e deixar que eles pegassem, durante um mês, um ônibus de Cubatão para Santos no verão. Aí sim eles teriam motivos para reclamar.

Limpos, arrumados e organizados: três palavras para caracterizar esse transporte. Os ônibus não tinham muita coisa de diferente do que encontramos em Santos. O metrô, por outro lado, tinha vagões extremamente antigos. Para abrir a porta, era necessário girar uma alavanca. A disposição das cadeiras mostrava o quanto ele era antigo: não foi pensado para conforto, apenas para sentar.

Antes que você não esqueça de me perguntar: sim, eles tomam banho.

O departamento de folha de pagamentos, Eva, marcou um horário para mim no HSBC de Marselha. O funcionário é livre para escolher seu banco, mas o motivo de eu ter ido a ele é que havia um gerente que falava inglês. Abdel era um homem de família árabe, americana e francesa. Trabalhou em Wall Street por muitos anos e voltou para Marselha porque os pais estavam doentes.

Tudo no banco era diferente. A recepção parecia de um hotel. A recepcionista chamou o gerente, que me levou a sua sala e insistiu até que eu aceitasse café. Não tinha como Abdel ser mais agradável: ele se interessava pelo Brasil, sua cultura e, principalmente, futebol. Eu sou um tipo estranho de brasileiro: não gosto da maior parte das coisas que gostamos e não gosto de futebol. O que também pode ser um pretexto para justificar o fato de eu não ser bom.

Sua sala era agradável e ele me explicou a infinidade de benefícios que eu teria com aquele banco: Durante um ano a tarifa seria de apenas um euro por mês, um valor simbólico. Eu teria diversos tipos de seguros, entre outras coisas. Na França, você escolhe entre um cartão de débito ou crédito. O débito é como no Brasil e o crédito é uma compra na qual será debitado automaticamente da sua conta no quinto dia de cada mês. Eu teria um cheque especial de, aproximadamente, três mil euros e o saque da minha conta poderia ser feito em qualquer caixa eletrônico, incluindo de outros bancos, algo que eu achei extremamente curioso. Eu saí do banco feliz com essa novidade. Tudo de novo me animava. Como uma montanha russa, havia momentos felizes e momentos tristes, mas em uma escala de tempo curta.

Apenas por curiosidade, financiamento de imóveis: taxa de juros baixa e parcelas similares às de aluguéis. Ou seja, eu pagaria um aluguel, mas se desejasse ser dono do meu próprio imóvel, pagaria um valor bem próximo.

No segundo fim de semana, o pessoal do escritório marcou de ir ao mesmo bar para me dar as “boas vindas”. Além da Sophierina e do Fernando, foram Thierry e Seb. Seb já estava na empresa havia dez anos. Ambos foram muito gentis comigo e deram seu melhor para que eu me sentisse bem. Fiquei levemente bêbado e fui para casa alegre, levemente alcoolizado.

No sábado, voltei a me sentir sozinho. Apenas no fim da tarde eu me encontrei com Seb novamente. Foi nesse momento que eu conheci Peter e Samantha, sua esposa. Nós quatro jogamos um “caça ao tesouro”. O jogo, cujo nome não me recordo, mostrava uma região e dava dicas sobre esse tesouro que, na verdade, era apenas um canudo com papel dentro. Se você o encontra, pode escrever seu nome dentro. Desistimos porque estava muito difícil e fomos tomar uma cerveja no pub chamado “The Sharmlock”. Lá eu descobri minha cerveja preferida na França: Cuve de Troll.

Conversamos sobre diversos assuntos. Eles elogiaram meu inglês (o que me deixou impressionado e aconteceu mais três vezes depois disso). Por volta das nove horas, começou a ficar tarde, Peter e sua esposa foram embora.

Peter é um dos principais atores dos curta-metragens dos filmes de Fernando.

Seguimos o caminho do Vieux Port e conversamos sobre diversos outros assuntos. Foi a primeira vez que vi as praias de Marselha. Comparadas com as que eu conhecia, elas eram pequenas e frias. Mesmo durante o dia, estava muito frio para sequer pensar em nadar. A costa tinha a água mais azul e transparente que eu vi na minha vida. Eu só tive certeza disso quando eu passei por aquele mesmo lugar durante o dia.

Aparentemente, Seb não tinha se alimentado bem durante o dia. Portanto, chegamos a um lugar que tinha um restaurante e jantamos. Não me recordo o nome do prato, mas ele era um nhoque com um molho especial servido diretamente na panela. Seb me contou que sua vó costumava fazer um prato daquele e que foi um momento nostálgico poder jantar ali. 

Estávamos em um dos bairros mais ricos da cidade. Um homem nos parou de carro para pedir informações. No início, fiquei com medo, mas lembrei onde estava e o quanto a incidência de crimes era baixa. Falei para Seb que, se fosse em Santos, certamente teríamos sido roubados. Ele me confortou dizendo que é extremamente raro em Marselha. Mesmo assim, se acontecesse, jamais tirariam minha vida por um celular. Eu tinha que confiar nele. Além de já ter vivido em vários lugares, Seb sabia do que estava falando. Ele vivia sozinho e tinha a mesma idade das outras pessoas.

Seb me indicou o caminho de volta e demorei 30 minutos para chegar ao hotel. Na noite e no vento frio eu refleti sobre a minha vida, sobre meu dia e sobre minha noite. Não importava o que estava acontecendo: me sentia deslocado. Mesmo cheio de pessoas, eu continuava a me sentir sozinho. O francês já não estava sendo um problema. Agora, eu podia entender tudo que as pessoas falavam e conseguia fazer perguntas básicas. “Comment est-ce que Je faire pour aller a rue de la republique?”, “Combien ça cout?”, “Ça va?”.

Marselha não era uma cidade fria, mas o Mistral fazia a sensação térmica descer muito. Ele, basicamente, é um vento frio que vem do norte e passa pela faixa litorânea. Às vezes estava 8ºC, mas a sensação era de algo próximo de zero. No começo, eu o odiava, mas depois comecei a amá-lo e, hoje, sinto sua falta. Sair de casa e não sentir o vento me empurrando com violência parecia algo sem graça.

Algo importante a destacar: eu sentia que estava em um estado de aceleração extremo. Algo na minha vida me fazia sentir que o tempo passava mais rápido. Estava na minha segunda semana, mas tudo era tão intenso que parecia mais de um ano. Seria efeito do desgaste de tudo que passei?

No domingo de manhã eu fui ao supermercado, comprei o básico para minha semana no hotel e fui à missa, cortesia do Peter, que pesquisou e me indicou o local. Ir para a igreja foi difícil. Eu entendo a estrutura de uma missa e sei o que está acontecendo, mas não entendi nada do que o padre disse. Foi nesse momento que cheguei à conclusão de que o que eu estava me propondo era algo muito mais difícil do que eu poderia imaginar.

Diferentemente do que me disseram, os franceses realmente são resistentes para falar inglês. Eu saí da igreja me sentindo mais triste e vazio. A única coisa boa na minha rotina era o trabalho. A semana voava, mas o fim de semana demorava uma eternidade para passar.

Sophie me apresentou a Huyen, uma vietnamita que falava francês e havia crescido na República Tcheca. Não me lembro como elas se conheceram, mas ela se tornou alguém muito especial, que sempre tentava me incluir nos passeios e coisas do tipo.

Ela me apresentou a Axel, um francês de Marselha que tinha praticamente a minha idade. Ele foi a pessoa que mais se esforçou para eu me sentir em casa. Saímos juntos algumas vezes e ele me apresentou Malia, sua namorada alemã.

A história dos dois era complicada, mas de forma resumida, eles se conheceram na Irlanda, onde trabalharam juntos em um hotel. Depois de um ano juntos, eles se mudaram para a cidade natal de Axel e passaram a morar juntos.

Diferentemente do Brasil, é extremamente comum os jovens morarem juntos antes de casar. Os dois ficaram muito próximos. Malia era muito solidária comigo porque não falava francês e gostava de me ter por perto porque ela sentia que era mais uma pessoa para conversar.

Percebi que, para os europeus, nada é tão significativo. Por exemplo, morar em outro país é tão banal que eles não se importavam tanto em mudar-se e começar uma vida nova. Sempre estariam perto de casa. Por isso, para qualquer europeu, o que eu passava não fazia sentido. Em minha última conversa com Axel, ele dizia que estava preocupado por Malia não estar se adaptando bem ao trabalho novo, onde era vendedora.

 Ele disse que não se importava em sair da empresa e ir para a Alemanha com ela. Ela, por outro lado, queria ir para o Canadá. Eu fui embora de lá sentindo que, mesmo que ficasse lá, não os teria por muito tempo.

Algo interessante a ressaltar sobre a cultura francesa: é comum os homens próximos se beijarem no rosto. Eu nunca me incomodei com isso e vi o quanto eu era querido quando eles começaram a me tratar assim. Axel foi o primeiro que o fez e ninguém precisava falar algo para mostrar o quanto isso era significativo. Sem dúvida eu sentiria falta dos dois.

No escritório, comecei a me sentir um fantasma. Meu gerente fazia parecer que eu não existia. Me levava para reuniões com pessoas que eu precisava conhecer, mas não sentava comigo para mostrar qualquer objetivo ou tarefa que eu precisava focar.

Como eu já conhecia o trabalho (aliás, achava que conhecia), resolvi trabalhar como sabia que era possível melhorar o controle do país que eu estava responsável. Percebi, no final do meu primeiro mês, que eles assumiram que eu seria como a Marrie. Não me deram treinamento e isso gerou uma reunião do final do primeiro mês que acabou com a minha motivação.

No terceiro fim de semana, Renê me chamou para ir a sua casa. Ele era um francês que falava português. Trabalhou dois anos no Brasil como gerente do departamento que trabalhei, gerenciou por três anos o time da China e voltou para a matriz da empresa sendo diretor do departamento.

Quando me candidatei para a vaga, ele achou interessante me ter no time. Aparentemente, Renê me escolheu. Depois de um tempo fiquei pensando se esse não era o problema com meu novo gerente. Será que ele não ficava confortável comigo porque ele não tinha me escolhido? Para dificultar mais a situação, ele era extremamente fechado, o que, naquele ponto, não era novidade.

Renê morava em Aix en Provence ou, Provença, em português. Eu tive que ir para a estação Saint Charles, a mesma na qual uma mulher havia sido esfaqueada por um mulçumano extremista um mês antes.

O exército circulava o local com armas que eu nunca tinha visto na minha vida. A proposta do Renê era que eu encontrasse Vitor, um francês que também falava português.

Fiquei um pouco irritado com a situação. Eu não tinha um telefone que funcionasse, Vitor não tinha WhatsApp e nenhuma maneira de me contatar. Eu tive que encontrá-lo sem nem mesmo ter uma foto. Felizmente, ele me achou.

Eu descobri que Vitor era um homem extremamente aventureiro. Costumava aceitar vagas de emprego em lugares que ninguém queria ir, como a África. Lugares extremamente perigosos, com pessoas ainda mais perigosas.  Eu não tinha motivos para reclamar de Marselha, se parasse para pensar nisso.

O ônibus custou dez euros (ida e volta) e o trajeto demorou trinta minutos. Conversando com ele, percebi que, por uma coincidência do destino, nós poderíamos ter trabalhado juntos alguns meses antes. Nos conheceríamos de qualquer forma.

Ao chegarmos a Provença, descobri que era uma cidade extremamente pequena que poderia ser desbravada em algumas horas. Vitor parou em uma padaria para comprar sobremesa e, mais alguns minutos caminhando, encontrei o local para o apartamento do Renê.

Foi então que conheci Débora e Erick, sua esposa e enteado. Renê me contou que conheceu Débora no ônibus que pegava para ir trabalhar no período que estava no Brasil. Eles continuaram o relacionamento quando ele morou na China e casaram-se nesse ano. Erick era tudo que uma criança de 10 anos era: divertido e brincalhão.

Percebi que o Renê não era nada do que eu tinha imaginado. Ele foi extremamente acolhedor comigo. Talvez porque ele tinha passado por algo parecido quando era jovem.

Conversamos sobre os assuntos mais variados. De forma leve, eu pensava na minha volta para Marselha. Eu via o quarto do hotel na minha mente. Vazio, escuro e sozinho. Eu tinha medo daquilo e não queria que aquele momento acabasse. A qualquer momento eu seria engolido, mas não tinha ideia.

Caminhamos pela cidade, que parecia ter saído de um jogo do Assassins Creed. Ela era muito antiga e bonita. Muito mais bonita do que Marselha. Fomos a um museu e Renê me ajudava com as descrições das obras de arte. Vi estátuas lindas, extremamente complexas e um quadro de Pablo Picasso. Achei incrível.

Aquele sábado terminou comigo fazendo as compras da semana e lavando minhas roupas no hotel. Tudo novo que eu precisava fazer pela primeira vez era extremamente desgastante: ler as instruções em francês, entender e ter certeza de que nada daria errado. Eu passei bem a noite, mas no domingo tudo começou de novo. A tristeza me atingiu como um trem e toda vez que eu ficava triste me arrependia de ter ido. Não entendia o porquê de ter me candidatado para essa vaga. O medo crescia mais e as pequenas coisas começavam a me deixar mais assustado.

Minha irmã dizia que eu estava dando muita importância para coisas simples que não davam certo, e realmente estava. Sair na rua começou a ficar difícil. As coisas simples me deixavam com medo. Eu tremia sem razão aparente.

Saí para caminhar na cidade ouvindo música e fui ao Fort San Jean. A vista era linda. Poderia ver os barcos que ficavam atracados em toda a região do Vieux Port, mas nada daquilo me alegrava. Eu tinha a impressão de que precisava dividir com alguém, mas não tinha ninguém.

Fui ao Muce, o museu da história europeia. Ele dava uma vista para o pôr do sol. Sentei ali e fiquei observando tudo aquilo. Estar sentado me fez relaxar, mas não resolveu meu problema. Comecei a ficar triste de novo.

Quando eu andava pela cidade vazia, me sentia ainda mais sozinho. Eu estava muito longe de casa e comecei a duvidar se realmente queria estar ali. Havia um vazio existencial em mim.

Depois desse dia, percebi que minha sanidade realmente poderia estar se desgastando, como uma lâmina afiada muitas vezes. Nos horários de trabalho eu sentia vontade de chorar porque sabia que não teria descanso. Quando o fim de semana chegasse, se eu não tivesse nada para fazer, seria solidão de novo.

Nem todos os dias eu tinha alguém para almoçar comigo. Diferentemente do outro escritório, eles não estavam acostumados a almoçar todos os dias juntos. Às vezes, todos já tinham alguém para almoçar e eu ia sozinho. Aos poucos, meu medo de tudo aumentava. Pesadelos tornaram-se algo comum. Alguém invadiria meu quarto no meio da noite. Coisas sem sentido me incomodavam e, na minha cabeça, eu sentia que estava começando a enlouquecer.

A solidão era intensificada por não falar o idioma local. No escritório, todos conversavam em francês entre si e dificilmente falavam comigo. Eu não me sentia parte do grupo.

Nenhum deles me convidava para almoçar ou algo do tipo. Comecei a colocar a meta na minha mente de passar o período de experiência, pelo menos. Dessa forma, eu teria uma visão ampla do que estava acontecendo e poderia decidir melhor.

A minha noção de terror era diferente da dos franceses. A França tem, em média, 400 homicídios por ano. Você acha muito? O Brasil tem 60 mil. Nem se for multiplicado por dez chega perto do que o Brasil vive. Por isso, quando alguém comete um assassinato, isso choca o país.

A única forma de não chocar é se você vê pessoas sendo esfaqueadas em São Julio diariamente. Por isso, terrorismo é algo com o qual não se brinca. Os metrôs, trens e ônibus contêm avisos claros pedindo que a população avise caso veja qualquer situação suspeita, como mochilas jogadas no chão. 

Eu passei nervoso em duas situações bobas: a primeira foi quando minha barba estava muito grande e um árabe me cumprimentou. Ele tentou falar comigo três vezes, até que eu olhei para ele e ouvi algo do tipo: “Você não é árabe, é?”. 

A segunda foi um sábado à tarde em que eu estava conversando com minha mãe no telefone e ouvi várias viaturas passando pela rua correndo. Ao olhar na janela, vi adolescentes correndo e gritando uns com os outros. Eu tinha certeza que algo havia acontecido. Perguntei para Sophie se ela sabia de algo, mas ela respondeu que não. Depois percebi o quanto a situação era estúpida: eu estava em um dos bairros mais mulçumanos da cidade mais mulçumana da França. Se um ataque fosse acontecer, não seria ali.

Em meio ao desespero da minha mente, meus amigos estavam mais presentes do que nunca: Minha irmã, minha mãe, minha madrinha e meus melhores amigos recebiam minhas ligações todos os dias e sempre conversávamos.

Nos labirintos da minha mente, eu tentava fugir do que me fazia mal. Foi difícil aceitar escrever aqui e, por isso, omitir os momentos mais desagradáveis que passei. Conforme eu havia esquematizado, decidi aguardar até o Julio chegar.

Julio é um colega que fiz no mesmo escritório no Brasil e um homem extremamente inteligente. A empresa estava implantando um sistema novo e precisava fazer treinamento. Por isso, eles trouxeram uma pessoa de cada departamento da empresa do mundo. O lado bom para eles é que só havia sete. Julio foi um deles e eu esperava que a presença dele me ajudasse a ficar mais calmo.

O fim de semana que ele chegaria foi o mais difícil. Simplesmente parecia não chegar. Me aproximei mais da Laura, uma argentina que havia tentado me adotar. Acontece que a Laura havia passado por uma situação similar à minha. Saiu de casa nova e foi para um país que ela não falava o idioma. Desde que nos conhecemos, ela quis me ajudar.

A verdade é que, no fim, ela não esteve muito presente e só no sábado à tarde, quando eu estava à beira do precipício que ela surgiu. Para mim, infelizmente, já era tarde. Ela falou coisas ótimas e deu seu melhor para me ajudar, mas eu já tinha em mim a desmotivação. 

Naquela noite, Sophie estava comemorando seu aniversário. Ela fez uma “festa havaiana” em sua casa. Estávamos quase no inverno e a temperatura dificilmente era superior a 5ºC. Por isso, eles ligaram o aquecedor o máximo possível e as pessoas estavam vestidas com roupa de praia.

Naquela semana, eu já tinha enviado um e-mail pedindo ajuda, dizendo que não estava bem. Sophie respondeu achando que eu não precisava de um psiquiatra, mas decidir o que eu queria da minha vida.

Ela não foi rude, apenas notou que eu andava triste e que a distância da família poderia ser um motivo. Sophie, Laura e todas as outras pessoas não entendiam o que eu sentia e nunca vão entender. No aniversário dela, eu insisti em falar disso, mas ela ficou com medo de que as palavras dela pudessem ter me incentivado a voltar e voltou atrás, dizendo que eu tinha que tentar mais.

A parte mais legal da noite foi conhecer outras pessoas. Conheci melhor o marido da Laura, Thibaud, que trabalhava em uma companhia de petróleo. Conheci também um eslovaco chamado Ron. Este homem era um “construtor de relógios”. Estudou como eles funcionavam e trabalhava em uma loja no shopping prestando consultoria.

Relógios eram um assunto simples para mim até conhecê-lo. Ele insistia que havia diferentes tipos de relógios para diversas ocasiões e situações. Talvez eu nunca enxergue as coisas como ele, que me ensinou algo muito interessante.

Ron disse que seu pai saiu de casa quando ele ainda era menino. Durante muito tempo ele o procurou. Três dias antes de encontrá-lo, seu pai faleceu. Ele me disse então que era isso que ele amava nos relógios, pois eles tinham o bem mais precioso da vida: tempo. Sem dúvida, a melhor coisa dessa viagem foi conhecer as pessoas. Isso era a única coisa que me animava. Eu saí da casa da Sophie mais rico naquele dia. Voltei para o hotel, onde estava me sentindo relativamente bem.

No domingo, acordei quebrado. Nada que precise ser detalhado. O ponto mais interessante foi conhecer o Guilherme, um brasileiro que se ofereceu para me ajudar conversando e me levando ao médico.

Ele fez toda a tradução. Eu me vi dentro de um ciclo: eu queria duas coisas opostas e não conseguia me decidir. Talvez, essa tenha sido a parte mais difícil: ter a força para romper esse ciclo e tomar uma decisão. Quando ela foi tomada, fiquei mais leve.

Junto com o Julio, outros membros do mesmo departamento também chegaram para o treinamento. Talvez tenha sido a primeira vez que um analista de cada escritório foi reunido.

Durante a semana, saímos e fomos a vários lugares. O primeiro e mais legal foi um restaurante indiano, orientados por Vikran, o gerente do departamento de Melbourne, Austrália. Ele só tomava whisky em todos os lugares e foi uma das pessoas mais divertidas que eu conheci na minha estadia lá.

No outro fim de semana, levei Julio para conhecer os poucos lugares que eu conhecia. A cada segundo que passava ali, mais ele sentia vontade de se estabelecer e viver naquela cidade. Ele ficou empolgado com as facilidades de um país de primeiro mundo, mas não viu o lado difícil, aquele que ninguém fala que você vai ter que enfrentar quando está longe de casa.

Talvez, uma das coisas mais interessantes que eu tenha aprendido na minha solidão foi o silêncio. Feche sua boca e escute outra pessoa. Preste atenção aos detalhes e a tudo mais que você está cego para ver quando está falando da sua vida. Eu aprendi isso e quase um mês depois da minha volta, me sinto muito mais sensível ao ambiente no qual estou inserido.

Decidi ir embora. Minha saúde não me permitia mais escolher ficar. Eu havia passado por momentos de temor ruins, os quais não descrevi aqui. Minha família queria que eu voltasse e foi o que eu fiz.

Nas minhas duas últimas semanas, tendo noção da seriedade do que eu passava, Laura, Sophie e Florence me convidaram para dormir em suas casas. Renê também o fez, mas havia tantos convites que eu não tinha mais tempo para visitar tantas pessoas.

Nesse ponto, eles haviam acreditado que eu tinha depressão e que eu não estava bem.

Em meu último dia de trabalho, o TI errou e apagou meu cadastro do sistema. Durante a tarde, fui dispensado. Tive a tarde livre para caminha uma última vez no Terrase du port.

Vi seu pôr do sol e essa é a última lembrança que tenho da cidade e da Torre.

Na volta, fiz conexão em Casa Blanca pela companhia aérea Royal Air Marroc. Se você voa de classe econômica, não terá nenhuma diferença, isto é, mais conforto. Voltei desconfortável do mesmo jeito que fui. Ao encontrar minha família, tudo parecia diferente. 

Eu não era o mesmo homem que saiu do Brasil e imaginar minha vida antes de ir é algo curioso: é como se tudo fosse um filme antigo. É difícil pensar na forma como eu me sentia, como sentia o mundo e seus detalhes.

As pessoas que me viam e não deixavam sua curiosidade falar alto eram as que eu mais gostava de estar perto. Eu sabia que, no fundo, elas sabiam o que tinha acontecido comigo e não precisavam perguntar.

A verdade é que todos deixaram isso tão de lado que chegou um ponto que pareceu que esse período na minha vida nunca aconteceu. 

Decidi deixar meu cabelo e barba crescerem. Eu queria tudo diferente do que estava acostumado. Queria me olhar no espelho e não saber quem era aquela pessoa.

Era um homem corajoso que desejou enfrentar o mundo ou uma pessoa de verdade que pode ser quebrada? Os dois? Gosto de pensar que sim. 

Encontrei meus limites e, como um controlador, eu gostaria de poder controlar tudo. Todos os remendos que fiz em mim mesmo nos últimos cinco anos não aguentaram a junção de situações difíceis que passei nessa fase da vida. Hoje, eu sou um homem quebrado. 

Algo que começou com apenas um clique tornou-se a experiência mais difícil da minha vida. Não pelo que estava acontecendo, mas pela situação psicológica que eu me encontrava. Hoje é claro para mim que eu não estava preparado e não tenho vergonha disso. Minha tristeza é que nada foi como eu esperava, mas aprendi muito. O fato de eu ser outra pessoa não quer dizer que é algo completamente ruim.

Hoje, quase dois anos depois, ainda olho para esses dois meses e não entendo as sensações que tive. Minha vida nunca mais foi a mesma. Alguns dias eu acordo me sentindo forte, outros, fraco. Mesmo assim, eu aprendi muitas coisas.

Não sou capaz de controlar tudo ao meu redor e essa foi a lição mais preciosa que aprendi. Aceitação e gratidão são coisas que eu não entendia muito e hoje tento vivê-las ao máximo.

Mesmo longe e mesmo tendo sido um momento extremamente difícil da minha vida, excluindo as pessoas, sinto o ar de Marselha, o sol em meu rosto, o som do mar e, mais importante: ainda sinto o Mistral.